Fédon (ou acerca da alma)

pag.45 (…) Não lhes ligues – repetiu Sócrates -. Desejo expor-vos, meus juízes, as razões pelas quais resulta ser legítimo para mim, que um homem que de verdade dedicou a sua vida à filosofia, na proximidade da hora da morte, esteja com uma forte esperança de que, uma vez morto, venha obter uma suma felicidade no Além.(…)

pag.47 (…) – Agora, meu bom amigo, vê se partilhas a minha opinião quanto ao seguinte, pois se o fizeres penso que faremos mais luz sobre o objecto do nosso exame. Parece-te próprio do filósofo andar dedicado ao que chamam prazeres, por exemplo, da comida e  da bebia?
– De modo algum, Sócrates – disse Símias.
– E quanto aos prazeres sensuais?
– É certo que não.
– E quanto aos demais cuidados corporais, julgas que um tal homem os considera importantes? Por exemplo, a aquisição de vestes e calçado luxuoso, e os outros adornos destinados ao corpo, parece-te que os estima, ou despreza-os, servindo-se deles apenas na medida em que for necessário possuí-los?
– Penso que os desprezará – afirmou – se é que se trata de um verdadeiro filósofo.(…)

(…) E no respeitante à aquisição do conhecimento É ou não o corpo um entrave, se alguém o toma na investigação para auxiliar? Quero dizer o seguinte: acaso garantem alguma certeza aos homens, a vista e o ouvido, ou sucede o que até os poetas nos repetem continuamente, que nem vemos nem ouvimos nada com evidência? Se entre os sentidos corporais, aqueles não são exactos nem seguros, menos serão os outros, pois lhe são inferiores. Não pensas assim? (…)

pag.52 (…) O corpo arranja-nos mil preocupações pela sua necessária alimentação; além do mais, sobrevindo doenças, novos entraves nos impedem o encalço do verdadeiro ser. E o corpo cumula-nos de paixões, desejos e medos, fantasias de toda a espécie e de enorme futilidade, de modo que, como verdadeiramente se diz, por causa dele torna-se-nos impossível conhecer seja o que for!(…)

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Tantas associações que nascem a partir da leitura deste livro. A relação quase directa com a religião católica e um certo ascetismo. Também a lembrança do livro Sidarta de Herman Hess

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Fédon (ou acerca da alma) – Platão; Guimarães Editores

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