sobre cultura e educação

Já está disponível o programa número 5 do meu podcast O Porto em Conversa falei com Catarina Martins da companhia de teatro (e não só) Visões Úteis.

A conversa foi naturalmente sobre cultura, desde a relação do público com a arte contemporânea à importância dos teatros municipais (e a questão portuense do Rivoli).

Falámos ainda de alguns projectos como o Coma Profundo (que está disponível em podcast para qualquer pessoa no site da companhia) e outros similares (“Errare, Parma; “Os ossos de que é feita a pedra“, Santiago de Compostela) que podem também servir de valência turística para a cidade. E naturalmente os custos da cultura…

Na preparação deste programa troquei com algumas pessoas uns emails interessantes que publico em baixo:

a ideia com que fico é que cultura e educação é +/- o mesmo no que diz respeito a indicadores para avaliar a sua eficácia.
como é que consegues definir um valor para determinar se uma escola está ou não a fazer um bom trabalho? não será isso quase o mesmo que tentar determinar se um espectáculo faz ou não sentido?
a diferença é que enquanto a politica de educação e sua aplicação é muito comandada, no sentido de que meia-dúzia (estou a exagerar claro) de pessoas diz como se vai operacionalizar a estratégia de educação definida e ela é muito parecida no país todo, na cultura, a parte de operacionalização é mais “solta”, é dada ao criador, para além dos recursos também a possibilidade de definir com que projecto vai executar essa estratégia…
se assumirmos à partida que a cultura não tem que ser rentável (se calhar à semelhança das infraestruturas de transportes publico) então assumimos que temos que usar indicadores indirectos para determinar se realmente ela é eficaz ou não… e aí é que a coisa fica complicada…

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não sei se será tanto assim…
uma escola obedece a critérios de avaliação objectivos, como o nível de sucesso escolar
enquanto que um espectáculo pode fazer sentido e ter uma assistência de 3 pessoas…
sempre me causou muita perplexidade a questão da avaliação do mérito de um projecto cultural

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acho que a questão não é tanto o mérito mas sim comparar o investimento vs retorno.
aceito que possa haver espectáculos com mérito mas dizer que eles têm que ser pagos por todos para usufruto de (muito) poucos já me parece outra coisa
é algo que já entra noutro tipo de comparações como por exemplo perceber qual o interesse de investir em ciência pura vs ciências aplicadas
são coisas que não são (tenho ideia) facilmente contabilizáveis o que as deixa reféns daquele discurso das peças com meia dúzia de pessoas a assistir ou exposições ultra-avant-gard que não têm de facto nenhuma relação com a maior parte das pessoas (porque nem têm que ter).
e o pior é que do outro lado da barricada também temos pessoas que consideram um direito serem apoiadas e acham um quase insulto questionarem as suas obras… voltando à ciência eu imagino que o einstein também achasse um insulto que alguém o questionasse mas se calhar já não me pareceria tão mal que alguém que ainda nem publicou nenhum artigo relevante seja avaliado mais criteriosamente…
para mim o valor da cultura é uma questão intuitiva mas isso só serve para justificar algo quando há uma relação de confiança entre as partes. e tenho ideia que entre criadores, financiadores (mais os publicos) e cidadãos ela em grande parte não existe.

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investimento vs retorno?
mas o principal retorno é algo intangível… penso que, no que respeita ao consumo cultural, não poderemos fugir da questão da intangibilidade…
felizmente, nem tudo é “cultura à La Feria”, com dezenas de milhares de espectadores por peça…
por isso é que te enviei o 1º e-mail: a Casa da Música, que penso ser um equipamento consensual e actualmente incontornável na cidade, é um “caso de sucesso” em que 70% das receitas são subsídios do Estado! isto, sem contar com os milhões de patrocínios (claro, ainda não está em velocidade cruzeiro, mas não creio que possa vir a ser rentável per se)

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O que é o nível de sucesso escolar? Não pode ser a escola a avaliar o seu próprio sucesso.

Para haver critérios de avaliação objectivos, que tanto podem existir nas escolas como na cultura, é necessário… definir objectivos / missões.

Inicialmente, a escolaridade existia para:
– que os cidadãos pudessem usufruir da própria educação (entendia-se que isso era bom)
– que a educação era uma condição necessária para o exercício da cidadania
– promover uma cultura de obediência e disciplina (lógica militarista ou de preparação para um mundo industrializado).

Hoje, fala-se quase exclusivamente na utilidade da escola numa lógica de preparação para o mercado de trabalho. Digo “fala-se”, porque essa lógica deveria levar ao aumento da componente técnica (e correspondente redução da componente cultural) do ensino. Ainda bem que não se passa da conversa…pois não me parece ser essa a principal missão da escola, ainda que não seja uma missão menor.

Como avaliar então a escola? Taxas de participação dos cidadãos na democracia (% abstenção, nº movimentos cidadãos, leitura de jornais, etc). Interesse pela vida cultural (nº bilhetes cinema, teatro e outros espectáculos, livros vendidos, etc). Produção e produtividade (PIB, produtividade hora, % sector quaternário e quinquenário, etc). Cidadania / civilidade (criminalidade, nº mães adolescentes, nº multas trânsito, nº crimes e contra-ordenações em tribunal, % acordos nos tribunais).

Como avaliar a cultura? Bem, a avaliação da qualidade cultural é subjectiva. Embora, a meu ver, seja regra geral bastante objectiva excepto para alguns pseudo-intelectuais e wannabes, mas adiante.

Mas, do ponto de vista do agente público, é necessário avaliar a utilidade dos recursos investidos em bens culturais. Convém não esquecer que estamos em democracia. E tendo isso em conta, é necessário:
1) Avaliar externalidades da produção de bens culturais (que são enormes, e infelizmente este trabalho está quase sempre por fazer)
2) Que do ponto de vista do publico se vise (do mais para o menos importante):
a) prioritariamente publicos alargadados não servidos por produção cultural (por ex. por falta de $)
b) a criação desses publicos quando inexistentes (devendo ser avaliada a eficácia na criação de publicos)
c) a promoção da diversidade de manifestações artísticas, o apoio de correntes minoritárias, etc., nos casos em que a cidade / país já tenha uma vida cultural intensa.
3) Que se privilegia a produção cultural à reprodução cultural (uma coisa é compor e executar um concerto para piano, outra é apenas executá-lo).

Em todo o caso: externalidade económica + nº pessoas adicionalmente servidas + produção cultural original parecem-me bons critérios básicos.

Quanto aos projectos para assistências de 3 pessoas… o ideal é procurarem mecenas. Ontem a Igreja da Lapa estava cheia num concerto de Avé Marias de elevada erudição. Pessoas que dificilmente pagariam 5€ para assistir. Não por não valorizarem, mas simplesmente por não poderem. Custa-me que neste país ainda se apoiem (felizmente cada vez menos) espectáculos com tão poucos espectadores quando existe tanta avidez cultural.

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