Entrevista de Maria Flor Pedroso a Medina Carreira

Transcrição da entrevista de Maria Flor Pedroso a Medina Carreira para o seu programa semanal na Antena1 de 3-out-2008

[Maria Flor Pedroso (MFP)] – Ora viva bom dia Dr. Medina Carreira, retomamos a entrevista semanal na Antena1 agora à sexta em directo sempre depois das notícias das dez. É amigo de sempre de Mário Soares, apoiou agora na última eleição Cavaco Silva para a presidência da república Ainda é amigo do Dr. Mário Soares?
[Medina Carreira (MC)] – Sou, sou…
[MFP] – …mesmo depois de ter apoiado o seu rival…
[MC] – …não tem nada que ver uma coisa com a outra…
[MFP] – …ele não se zangou muito consigo…
[MC] – …não, ele não se zangou, ele é um homem que percebe as coisas. Ele percebeu que de facto não se deveria ter candidatado.
[MFP] – Uma das coisas que o Sr. disse há 2 anos quando essa campanha começou é que tanto poderia ter apoiado Cavaco como Soares porque tinha a intuição que íamos acabar mal, dizia isto ao jornal de negócios, e dizia ainda que tem a intuição que vamos acabar mal, vamos ter uma crise grave, vamos entrar num ciclo de pobreza, o Dr. Soares pela sua maneira de ser aceleraria esse ciclo, e o Prof. Cavaco Silva pode adiá-la 2 ou 3 anos mas não sei se será capaz de a evitar. Quando dizia isto estava a pensar nesta crise?
[MC] – Não, nesta ninguém pensava, é que o nosso problema não nasceu agora, isso é um equívoco… Sabe que em Portugal vocês só fazem análises de 3 em 3 meses e 3 em 3 meses não dá para perceber coisa nenhuma…
[MFP] – …vocês, está a falar de comentadores…
[MC] – …vocês comunicação social, que por seu turno veicula aquilo que os políticos e as estatísticas dão, mas isso não serve para nada, isso só serve é para enganar o pessoal, porque se nós formos ver, por hipótese o último quarto de século português, nós no último quarto de século 80-2007 crescemos ao ano 2,4[%], mas destes 27 anos em 17 deles, por conseguinte em 2/3 crescemos 0,9[%]…
[MFP] – …não chega a um por cento…
[MC] – …não chega a um e esta é que é a realidade portuguesa, e esta realidade não está a ser atalhada porque os partidos políticos e os governos têm que trabalhar para hoje, quer dizer, têm que enganar hoje…
[MFP] – …enganar?
[MC] – …enganar, com sondagens, com conversa, este governo é um governo de conversa porque é preciso manter um entusiasmo que não corresponde à nossa realidade…
[MFP] – …mas também sem entusiasmo não se faz nada, não é deprimido que se faz alguma coisa…
[MC] – …entusiasmo sobre a verdade , deve dizer-se o que é o pais e para onde vai o país se não fizermos isto ou aquilo ou aqueloutro e aquilo que andam a fazer é que o pais vai para certo sitio que não vai… o país com a educação que nós temos com a justiça que nós temos com a corrupção que nós temos com a burocracia que nós temos com tudo isso, este pais não tem futuro no mundo de hoje.
[MFP] – Mas Dr. Medina Carreira, o que é que se safa em Portugal?
[MC] – o que se safa são os portugueses. São é pessimamente dirigidos, são enganados sistematicamente, já eram enganados no tempo de Salazar e continuam agora a ser enganados de outra maneira.
mpf – Mas apesar de tudo em democracia. Há-de haver alguma virtualidade…
[MC]- …ouça, uma democracia…. este episódio dos EUA em que a câmara dos representantes votou contra é o exemplo de uma democracia porque eles são eleitos pelo eleitor, aqui os deputados são eleitos pelos chefes do partido e portanto há disciplina de voto têm que estar ali quietos e calados senão na próxima legislatura vão embora e portanto isto é uma democracia aparente.
[MFP] – Advoga portanto uma alteração do sistema eleitoral?
[MC] – Com certeza porque estes deputados não servem para nada.
[MFP] – Não servem para nada?
[MC] – Não, é para aqueles espectáculos que vocês têm que transmitir e para entreter o pessoal, porque eles não podem veicular as suas próprias opiniões porque elas não são o produto do eleitor.

[MFP] – Henrique Medina Carreira, 77 anos, é licenciado em ciências pedagógicas, é advogado, é bacharel em engenharia Mecânica, ainda passou por económicas. Bom, a crise está instalada, Sr. Dr. já foi ministro das finanças, se fosse ministro das finanças hoje que conselhos é que dava ao seu primeiro-ministro Sócrates?
[MC] – (pausa)
[MFP] – Nunca seria ministro das finanças de Sócrates?
[MC] – Não, não, porque ele é um primeiro-ministro para o espectáculo ainda não percebeu o país em que está, portanto eu não tinha compatibilidade possível com o José Sócrates. Ele quer fingir que isto anda, e o ministro das finanças não pode aceitar fingimento. Portanto nunca poderia ser ministro dele. Aliás o Prof. Campos e Cunha… um dia devia saber-se porque é que ele saiu. Ele chegou lá e ao fim de três meses percebeu o que é (???)… O Dr. Teixeira dos santos tem feito um bom trabalho nos limites do possível.
[MFP] – Então, que conselhos é que dava ao actual ministros das finanças?
[MC] – Eu a este como aos outros que têm passado por lá e que porventura sejam meus amigos dou-lhes sempre o mesmo conselho que é irem à televisão, virem aqui a vocês, com um quadro preto atrás explicar o que é o país. Isto. crescemos 2,4 em 27 anos em 17 deles crescemos 0,9…
[MFP] – …sim mas, e depois?…
[MC] – portanto há que arrumar a casa, aqui temos dois sectores a considerar, o estado e a sociedade. O estado tem que fazer o que é próprio de si. Tem que arrumar a casa tem que por tudo em ordem para que a sociedade tenha condições para voltar ao seu rumo. E o estado não o faz, e não o faz por uma razão simples, é que os partidos entram para o governo, primeiro não sabem o que vão para lá fazer, estão 6 meses a tentar perceber onde está a realidade, a partir de seis meses começam a fazer coisas, mas a um ano e tal das eleições têm que parar para começar a preparar as eleições, portanto nunca há tempo para ir longe em coisa nenhuma.
[MFP] – Sendo assim, isto não tem nenhum remédio.
[MC] – Ah não tem! com este sistema democrático nós vamos ficar pobres. A minha dúvida não é isso, nós vamos ficar pobres. Agora, até há cerca de um ano eu pensava, vamos ficar pobres, e quietinhos aqui encolhidinhos e tal a ver o bom sol e a boa sardinha. Agora eu estou convencido que vamos ter perturbações sociais muito grandes. Porque à pobreza estão a juntar-se sinais de uma grande imoralidade na vida pública. A corrupção, não há corruptos. As obras custam quatro vezes mais, ninguém vai averiguar porque custam quatro vezes mais. Andamos entretidos com o “Apito Dourado” e a Fátima Felgueiras e o pais, bom, este caso dos gestores que ganham fortunas e depois são tão bons ou tão maus como qualquer outro fosse gestor e portanto, este pais está a sentir que vive num ambiente de grande imoralidade e de grande desequilíbrio e portanto a pobreza não vai ser bem aceite.
[MFP] – Medina Carreira, as medidas que ontem o ministro das finanças apresentou, mais regulação nos mercados, as penas de prisão para os gestores resolvem algumas coisas?
[MC] – Eu não sei quais são as medidas. A única coisa que eu posso questionar é a oportunidade. É um sistema do governo… quer dizer, ainda não sabe bem bem o que é que aconteceu e já o governo está a legislar. Isto era uma coisa para daqui a uns meses ver o que se passou na realidade, viver da experiência da vida dos acontecimentos e depois legislar. Mas legislar em Portugal também é uma fantasia porque legisla-se mas nunca acontece nada, nunca acontece nadam a gente nunca vê ninguém a ser apanhado…
[MFP] – …mas dada esta situação ao governo português para proteger o mercado interno, se bem que hoje [com] as fronteiras isso seja muito relativo, não havia nada a fazer? Não há nada a fazer?
[MC] – Não. Para proteger o mercado interno não. Nós não temos orçamento, nós não temos moeda, nós não temos alfândegas, nós não temos câmbios, nós não temos nada….
[MFP] – …o mercado financeiro interno…
[MC] – …o nosso problema não é o mercado financeiro interno. Porque nós por azar não temos dinheiro para andar a comprar aquele lixo que os americanos emitem…
[MFP] – …os produtos tóxicos…
[MC] – …esse lixo americano e portanto felizmente como não tínhamos dinheiro porque se terá comprado do lixo se é que se comprou alguma coisa.
[MFP] – Dr. Medina Carreira, é capaz de explicar porque é que aconteceu isto ao dinheiro do mundo?
[MC] – Parece que, pelo que se sabe, porque ainda não se sabe tudo e se calhar nem se sabe muito, os americanos, num ambiente de especulação e facilidade, começaram a emitir papel que não tinha consistência para quem era dono do papel. Esse papel porque era americano foi comprado pelo mundo…
[MFP] – …quando diz papel diz acções …
[MC] – …esses produtos, chamam-lhe produtos financeiros as pessoas que sabem disso…
[MFP] – …pois, mas o ideal era que nos conseguíssemos explicar aos nossos ouvintes o que é isso…
[MC] – …mas eu também não sei o que é. Sei que são coisas que eles inventam e que dão dinheiro no imediato mas dão um dinheiro que não assenta numa economia consistente. E o mundo tem que aplicar os seus capitais, e os países que tinham capitais foram comprando esse papel, esse lixo…
[MFP] – …como Portugal não tem dinheiro não o comprou. Por isso não é afectado?
[MC] – Bom, provavelmente se tivéssemos dinheiro se calhar não estávamos tão satisfeitos. Portanto eu não estou com problemas no mundo financeiro português. Eu estou com medo é de outra coisa, porque essa é certa, é que a economia vai-se ressentir por causa das perturbações financeiras…
[MFP] – …e isso significa o quê…
[MC] – …desemprego, falências…
[MFP] – …mais desemprego?…
[MC] – …sim, sim, é natural, em França o desemprego está a galopar, em Espanha ouvi ontem que é a maior taxa de desemprego dos últimos onze anos e isso é que vai acontecer. É mais desemprego a perda do poder de compra, fecha de algumas empresas e esse é que é o problema desta crise, porque esta crise, parece-me, do ponto de vista financeiro não vai ter consequências muito gravosas para Portugal.
[MFP] – Ontem o FMI já veio admitir que os EUA podem entrar em recessão. Hoje a França já o admite claramente se bem que o presidente do BCE Jean-Claude Trichet venha falar em abrandamento económico. A Espanha está como está, com a crise do imobiliário, e isto para Portugal como é que vai chegar? Além disto como é que isso vai chegar?
[MC] – Vai chegar de 2 maneiras. Do ponto de vista financeiro, como você sabe nós todos os dias importamos dinheiro. Porque nós andamos a viver de empréstimos. Nós, se houvesse um DECO internacional Portugal já lá estava a pedir conselhos. E já lá estavam as pessoas da DECO internacional a dizer o senhor não respeitou a taxa de esforço que é o que se esta a passar…
[MFP] – …essa DECO internacional não pode ser um pouco a União Europeia?
[MC] – Não. Não há assim nenhum órgão na União Europeia que dê para isso. A União Europeia preocupa-se com a questão do PEC e do orçamento mas ainda não criou instituições. Nós é que teríamos de criar uma forma de vida que não andássemos todos os anos, 10%, 8%, 7% acima do ponto que valemos. Nos estamos a valer cem e a gastar 107, 108, 109 e esse 7, 8 e 9, em boa parte, são cobertos por empréstimos e portanto nos estamos a endividar-nos dia a dia.
[MFP] – Concorda ou acha que faz sentido declarações como o do ministro Manuel Pinho a dizer que o mundo da prosperidade tal como o conhecemos acabo e que segue a um discurso do primeiro-ministro a dizer que as poupanças dos portugueses estão seguras que as entidade de supervisão estão atentas… que é preciso ter calma.
[MC] – Aí há 2 faces do problema. O primeiro-ministro está a falar da finança. Esteja quietos os bancos não estão mal…
[MFP] – …mas foi boa essa intervenção?…
[MC] – …foi, ele que fala todos os dias e devia estar calado a maior parte das vezes esta vez apareceu com oportunidade. A maior parte das vezes aparece sem oportunidade a entregar ai lixo…
[MFP] – …lixo?…
[MC] – …lixo… esses computadores…
[MFP] – …mas isso é lixo…
[MC] – oh… kits… mas você acha que é função do governo andar a entregar kits e lixo? Acha que sim? Acha que o país escolhe governantes e paga a governantes para andar a fazer de caixeiros-viajantes? Que é o que os ministros andam a fazer. A semana passada um foi para Moçambique por causa do diploma. Você acha que isto é alguma coisa de gente com juízo… bom não me responda claro… portanto nesse dia ele esteve bem. O ministro da economia falou de uma coisa diferente mas ele falou no meu ponto de vista erradamente porque ele veio dizer o tempo da prosperidade económica… um falou de finanças o outro falou de economia… e portanto disse o tempo da prosperidade económica acabou mas aquilo é um truque dele porque o tempo da prosperidade económica em Portugal já acabou há muitos anos. Estes 27 anos já são tempo de declínio económico para Portugal. Ele está é a preparar o pessoal para 2009.
[MFP]- Para as eleições..
[MC] – …exacto. Ele está a dizer, bom, vocês não pensem muito mal disto porque isto…
[MFP] – …ainda vai ficar muito pior?…
Mv – …vai ficar pior mas estão muitos piores. Nos somos uns piores de vários piores. Por conseguinte aquilo é um truque eleitoral que não corresponde a nada. Porque a prosperidade já acabou há muito tempo. Portanto é inoportuno e não é exacto.
[MFP]- Portanto o Sr. Dr. não concorda com a líder do PSD, Dra. Manuela Ferreira Leite quando veio dizer que o governo português estava a actuar tarde, que chegaram tarde as palavras do primeiro-ministro…
[MC] – …não, as palavras do primeiro-ministro…
[MFP] – …de conforto aos mercados…
[MC] – …é esta conversa política que eu detesto, mas o que ela quis dizer foi num discurso que ele fez para ai algures atacou a bolsa, e ela o que veio dizer foi isso não se pode dizer uma pessoa responsável porque isto desarticula completamente um sistema institucional, portanto, isto não é conversa para um primeiro-ministro, no fundo suponho que foi isto que ela quis dizer. E eu estou de acordo….
[MFP] – …mas não foi isso que ela disse…
[MC] – foi o que ela quis dizer. O significado dela foi esse. Foi vir aqui pintar de negro uma instituição que é fundamental que funcione.
[MFP] – Dr. Medina carreira não acha que em Portugal pode acontecer como já aconteceu nos EUA e em bancos europeus (ouvimos quase todos os dias) que seja necessário nacionalizar bancos e injectar dinheiro no sistema?
[MC] – Não, não creio que isso aconteça. Isso só acontecerá se nessa procura diária que os bancos fazem de dinheiro lá de fora isso começar a ser muito difícil. Porque o dinheiro lá de fora vai ser menos e vai ser mais caro, porque ele está a rarear. E como nós dependemos muito do dinheiro de fora, o que vai acontecer é que nos vão emprestar cada vez menos e cada vez mais caro.
[MFP] – Faz algum sentido para si esta ideia de privatizar a CGD como alguns defendem?
[MC] – Para mim não faz, se a CGD obedecer a uma política de apoio económico.
[MFP] – E obedece ou não obedece?
[MC] – Eu tenho impressão que não. A CGD empresta dinheiro para comprar acções para especular na bolsa…
[MFP] – …então sendo assim faz sentido privatizar…
[MC] – …sendo assim faz… quer dizer é indiferente. Se a CGD for igual ao BCP ou ao milénio…
[MFP] – …mas acha que é?…
[MC] – …eu acho que é mas não deveria ser…
[MFP] – …mas então assim não percebo. Privatize-se ou não se privatize?
[MC] – Se ela for o que é não vale a pena estar no estado. Mas eu sou partidário que ela esteja no estado mas que seja outra coisa. Que obedeça a uma politica económica do governo. Porque se a caixa é igual ao BCP ou BPI então fica para ai mais um BCP ou BPI.
[MFP] – Esta manhã fomos surpreendidos com a reunião do governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio com os banqueiros. Uma reunião que teve com vários banqueiros e que vai ter agora um a um. Não se sabe muito do que se passou lá. O que é que imagina que se tenha dito por lá, ou o que é que espera que o governador de um banco central português diga aos banqueiros portugueses.
[MC] – Está a fazer uma pergunta bastante difícil porque eu nunca estive no banco de Portugal nem nunca fui banqueiro felizmente.
[MFP] – Mas foi ministro das finanças que é mais do que isso tudo.
[MC] – Não, eu fui ministro das finanças num tempo em que o estado era dono da banca…
[MFP] – …entre 76 e 78, com juros de 30%…
[MC] – …chegaram a 30% no tempo de Mário Soares e Ernâni Lopes. Eu penso que ele está a combinar a estratégia de angariação de dinheiros…
[MFP] – …e que estratégia é que pode ser essa…
[MC] – bom, eles é que sabem, porque o Vítor Constâncio e os chefes dos bancos sabem muito bem que é lá fora que eles têm que ir buscar dinheiro e este é o grande problema. Quando agora se fala destas obras… A Dra. Manuela Ferreira Leite não foi completa quando disse não há dinheiro e vocês caíram todos em cima dela. Ela devia ter dito uma coisa mais do que isso. Não há cá dinheiro dentro nem há dinheiro lá fora para estar a fazer disparates porque como nos temos que pedir dinheiro para fazer essas obras tontas é evidente….
[MFP] – …essas obras tontas…
[MC] – …sim, a maior parte delas são tontas…
[MFP] – …quais é que não são tontas…
[MC]- …bem, eu não conheço a lista, eu por exemplo acho que não são tontas as barragens, acho que não são tontas os investimentos nas energias renováveis, agora fazer estradas por ai fora? Fazer auto-estradas, um país pobre, paupérrimo onde não se produz nada no interior…
[MFP] – …mas a auto-estrada de Trás-os-Montes…
[MC] – …mas para quê uma auto-estrada. >Trás-os-montes não viveria bem com uma boa estrada. Trás-os-Montes viveu com caminhos de cabra até agora e de repente salta de caminhos de cabra para uma auto-estrada. Acha que isto num país pobre é alguma coisa que faça senso? Olhe os países escandinavos que as pessoas andam sempre a louvar, eles tornaram-se ricos sem isto. Isto é típico dos países pobres, este novo-riquismo e uma gestão completamente irresponsável do dinheiro público. Essa lista que eu não conheço, que o governo devia pô-la, cá fora, não é dizer, vão a internet, eles em vez de andar a distribuir computadores, eles deviam discutir isso. Mas não… vão à internet que estão lá os estudos…
[MFP] – …e em relação ao novo aeroporto e TGV.
[MC] – O novo aeroporto, eu sou da opinião há muito tempo que nós deveríamos explorar a portela o mais possível por mais de uma razão, primeiro pelo custo, segundo porque é muito importante um aeroporto no sítio em que aquele está, terceiro porque a aviação com esta mudança da disponibilidade dos combustíveis é uma coisa que tem um grande ponto de interrogação a frente. Ninguém com um fundamento sério pode dizer daqui a 15 anos a aviação vai ser isto ou aquilo ou aqueloutro. Pode ser muito mais, pode ser muito menos.
[MFP] – Por causa do preço dos combustíveis
[MC] – a Alitalia estava falida…. Alguém pegou naquilo. Estas companhias de low-cost, enfim vivem com grandes dificuldades. A TAP ao que creio esta com grandes dificuldade. Portanto estar a fazer um aeroporto a contar com um tipo de vida do petróleo barato eu acho que é uma coisa completamente fora da esquadria como se diz.
[MFP] – Pois, ainda esta semana, Campos e Cunha, o primeiro ministro das finanças de Sócrates veio dizer que era uma boa altura para deixar cair esses grandes projectos.
[MC] – Com certeza, qualquer pessoa com juízo pensa isso. E se não é para deixar cair é pelo menos para discutir consistentemente tudo aquilo que está na lista. Não é dizer, vão agora a internet… patetice.
[MFP] – Ontem o Sr. Trichet, presidente do BCE, veio dizer que a inflação ainda é muito preocupante mas manteve a taxa de juro nos 4,25, fala-se numa descida da taxa de juro para Novembro, o que eu lhe pergunto é se acha que o mandato do BCE deve ser mantido tal e qual como está, ou seja com o enfoque na inflação e não no crescimento económico como a Fed.
[MC] – Eu acho que deve ser mantido como está.
[MFP] – E devem aumentar as taxa de juro, manter ou baixar.
[MC] – Eu acho que não é muito relevante…
[MFP] – …não é muito relevante?…
[MC] – …não é não. A taxa verdadeira, aquela a que os bancos andam a cobrar uns aos outros e ao publico esta muito acima da taxa…
[MFP] – …está, de facto não é 4,25 está agora nos 5,27…
[MC] – …ele desce 0,25 e o mercado…
[MFP] – …não desce também?
[MC] – …ele não é obrigado, porque o mercado não esta a pensar no Sr. Trichet. O mercado está é a pensar nos riscos de emprestar dinheiro e por isso cobre mais caro por taxa de risco…
[MFP] – …ou seja se o BCE baixara taxa de juro isso não significa que a Euribor desça…
[MC] – não é certo. Isto é tudo obra dos políticos, arranjaram uma instituição independente e disseram, vocês agora o que tem que fazer é tratar dos preços. Agora como isto já não lhes convém andam sempre a mandar recados ao Sr. Trichet. Se não querem aquela politica alteram o estatuto, tiram o Trichet e põe lá outro que faça a politica que querem, não podem é encarregar uma entidade de prosseguir um determinado objectivo e depois querer que ele faça outro.
[MFP] – Portanto, para si, o mandato do BCE deve estar como esta?
[MC] – Com certeza.
[MFP] – O que espera desta mini-cimeira dos mais ricos que o Sr. Sarkozy está a promover? Acha que a França e a Alemanha se vão por de acordo com o apelo que Durão Barroso já fez?
[MC] – Eu acho difícil porque os alemães são muito cuidadosos…
[MFP] – …os alemães não querem injectar dinheiro na economia…
[MC] – …os alemães não querem entrar numa coisa qualquer em que depois tenham que dar dinheiro aos outros. Eles já estão fartos de ser explorados e portanto a Sra. Merkel não quer entrar …
[MFP] – …mas Sr. Dr. a Europa consegue resistir com estes bancos todos a falir…
[MC] – …a Europa quer um saco de onde venha dinheiro. De onde é que vem o dinheiro, é da Alemanha que é quem tem e a Alemanha fica lá a ver passar os navios. Eu penso que é isso que leva a Sra. Merkel a colocar muitas reticências. À França convirá, a Portugal era um maná…
[MFP] – …nos EUA é exactamente a mesma coisa. Também se quer um saco de dinheiro. O plano Paulson que vai ser votado hoje na câmara dos representantes foi aprovado pelo senado…
[MC] – …mas os EUA são uma realidade, a Europa é outra coisa completamente diferente. A Europa é um fragmento de interesses, de nacionalidades, de estados e por conseguinte andam uns a puxar para si o que é dado pelos outros e por conseguinte aquilo que se faz nos EUA não é necessariamente aquilo que se faz na Europa.
[MFP] – Acha que Sarkozy está a copiar um [plano] Paulson para europeu?
[MC] – Sabe que o Sarkozy que me impressionou bastante bem na campanha eleitoral, eu acho que ele também já entrou na política do espectáculo e da conversa. Quando acontece qualquer coisa ele desata logo a correr para aqui, para ali, para acolá. Eu duvido muito dos homens de estado que têm este espírito de caixeiros-viajantes.
[MFP] – Portanto nós não temos horizonte…
[MC] – …nós não arriscamos! Repare, a minha posição na política é esta. Do ponto de vista internacional nós somos igual a zero ou menos que zero. Ou seja tudo o que aconteça vem cá parar e a gente pode encolher-se mais ou encolher-se menos. Por conseguinte o que nós devemos discutir são os problemas portugueses, porque esta crise vai passar, ninguém sabe [se demora] seis meses, um ano. A crise de 29 em queda livre durou 3 anos de 29 a 32…

[MFP] – …o Sr. Trichet disse ontem que esta a pior crise desde a segunda guerra mundial, que é mais tarde…
[MC] – …portanto isto é uma crise que pode durar seis meses, um ano, dois anos, três anos. Mas esta crise vai passar, o capitalismo vai reencontrar-se, ao contrário de algumas discussões um bocado tolas que circulam por aí, não há uma alternativa ao capitalismo, à economia de mercado…
[MFP] – …mas quando se nacionaliza nos EUA, isto é um capitalismo… há quem chame de capitalismo de estado…
[MC] – …mas isso é uma aldrabice ideológica porque os americanos não nacionalizam pela mesma razão que outros querem nacionalizar. O PC gostaria de nacionalizar por uma razão ideológica, era para acabar com o capitalismo. Os americanos querem nacionalizar para defender o nacionalismo. São coisas diametralmente opostas. Isto são discussões, digamos, ao nível da confeitaria…
[MFP] – …como o Sr. Blair dizia, não vale a pena distinguir direita e esquerda…
[MC] – …não é isso… é que as razões de nacionalizam são diferentes. Se é a extrema-esquerda que é o Dr. Louçã ou o Sr. Jerónimo de Sousa que quer nacionalizar é porque querem destruir o capitalismo, são coisas diferentes.
[MFP] – Por exemplo uma das coisas que o BE propôs esta semana foi rever, e estamos a 15 dias da aprovação do orçamento, foi que Portugal renegoceie o plano de estabilidade e crescimento que temos em Bruxelas, acha que é uma boa ideia?
[MC] – ouça… eu rio-me dessas coisas…
[MFP] – …porquê?…
[MC] – …porque se nós aumentarmos o défice, suponhamos que diziam, em vez de 3 pode subir, de onde é que vinha o dinheiro para isso?
[MFP] – Sim, mas é sustentável do ponto de vista social manter o défice?
[MC] – Nós temos que acabar por viver com o que temos. Nenhuma família, nenhum país vive dez, vinte anos a pedir dinheiro emprestado, por conseguinte, nós temos é que perceber a realidade e é por isso que a politica dos políticos a sério que a gente já quase não tem…
[MFP] – …quais são os políticos a serio que temos?…
[MC] – …bom, não vou dizer porque isso feria amigos…
[MFP] – …é que senão a gente não se entende…
[MC] – …entendemos, entendemos, o que você quer é arranjar aí um escândalo…
[MFP] – …não, não quero, ora essa…
[MC] – …você quer é escândalo. No governo quase todos não são a sério…
[MFP] – …no governo quase todos não são a sério?! Já viu o que está a dizer?…
[MC] – …sim, sim…
[MFP] – …eu sei que é responsável pelas suas afirmações…
[MC] – …sim, sim, mas eu não os levo a serio, você julga que eu ouço o que andam ai a dizer…
[MFP] – …mas então quem leva a serio? Já que não diz quem…
[MC] – Luís Amado, Teixeira dos Santos, mais quem… educação não, ambiente não, agricultura…
[MFP] – …[educação] já não porque dantes gostava muito da ministra da educação…
[MC] – …exacto quando pareceu que a ministra vinha para por ordem na casa, mas ela descarrilou completamente ao fim de…
[MFP] – …Vieira da Silva não?…
[MC] – …Vieira da Silva sim, mas… Vieira da Silva é um dos culpados de reformas não terem sido feitas à dez anos, quer dizer não pode ser ministro…
[MFP] – …no governo de Guterres?
[MC] – …sim, nessa altura já…
[MFP] – …nessa altura não era ministro, era secretário de estado…
[MC] – …bem, mas era um dos que dizia “não, reforma não, isto está tudo óptimo”, e por conseguinte aquilo que a comissão do livro branco percebeu, ele percebeu dez anos depois…
[MFP] – …comissão em que você integrou…
[MC] – …sim, quer dizer, não pode ser ministro um homem que percebe dez anos depois, a gente precisa de ministros que percebam dez anos antes…
[MFP] – …mas isso é ter razão antes de tempo e em política isso nem sempre é bom…
[MC] – …não é ter razão antes de tempo é ter cabeça antes de tempo que é uma coisa diferente. Por conseguinte, ministros com dez anos de atraso não servem…
[MFP] – …só me diz gente de jeito no partido socialista, já agora não quer alargar um pouco…
[MC] – …no partido socialista?…
[MFP] – …no governo socialista…
[MC] – …não sei, eu tenho alguma dificuldade…. Não ouço assim praticamente mais ninguém…
[MFP] – …lembro-me que anteriormente já elogiou [Jaime] Gama, António Costa
[MC] – …mas o Gama está fora de combate…
[MFP] – …é o presidente da Assembleia da República, a segunda figura de estado…
[MC] – …você que vai há assembleia da república, você acha que realmente aquilo é alguma função tão atraente, estar ali a dirigir aqueles duzentos sujeitos…
[MFP] – …230…
[MC] – …o Gama já está fora de combate…. Quem é que você queria mais….
[MFP] – …não eu não queria ninguém…
[MC] – …mas você dissse outro nome..
[MFP] – …era António Costa…
[MC] – …o António Costa está na câmara, está lá a gerir as dívidas…
[MFP] – …sim, mas só há gente no seu antigo partido…. Não tem saudades do PS pois não?
[MC] – …não, eu estaria num partido político se fosse uma coisa para levar a sério, mas aquilo não é para levar a sério. Você sabe que a política é feita agora por pessoas que têm que pensar duas vezes no que dizem sob risco de na próxima legislatura estarem desempregados, não pode ser um partido político a sério. Um partido político têm que ser homens livres que dizem aquilo que pensam, onde querem dizer, e à hora que querem dizer, e estes partidos não são assim. Os representantes da América, eles votaram contra porque eles são eleitos…
[MFP] – …porque estamos em vésperas de eleições… ou não…
[MC] – …imagine que aqui se punha um problema parecido com a câmara dos representantes dos EUA, estava garantida a votação a favor. O Alberto Martins dizia, isto é a disciplina de voto. O [Manuel] Alegre dizia “ah, isto é um disparate político mas tem que se disciplinar” e deixamos aí um rapazito da juventude fazer o que quer. Bom, mas isto é uma democracia? Isto é uma brincadeira. Isto não é muito diferente da Assembleia Nacional de Salazar. Eles também lá iam dizer aquilo que o patrão mandava dizer. Você acha que isto é democracia? Isto é um arremedo, um arremedo. Mas deve dizer-se, os portugueses devem saber o que somos, nós estamos a caminhar para bater na parede, um país que vive de empréstimos vai chegar a um ponto em que não há dinheiro para sustentar…
[MFP] – Dr. Medina Carreira, já agora pergunto-lhe, se votasse nos EUA votaria Obama ou McCain?
[MC] – Obama
[MFP] – Não gosta da Sra. Pallin ou não gosta de McCain?
[MC] – Não, McCcain não sei quem é mas parece um homem com juízo e experiencia, mas esta senhora que ele levou lá é um terror. Esta senhora se um dia chega a presidente dos EUA é altura para começarmos a rezar…
[MFP] – …não estamos já a rezar com Bush?
[MC] – Está bem mas esse vai se embora. Eu acho que Obama é a única pessoa que vale a pena.
[MFP] – Estamos a 15 dias do orçamento. Qual é que seria o seu orçamento, Sr. antigo ministro das finanças?
[MC] – Em que sentido?
[MFP] – Qual é que seriam as suas propostas para o orçamento, o que é que o governo deveria apresentar para 2009. Um orçamento de ano eleitoral com 3 eleições.
[MC] – Eu acho que o governo tem que apresentar um orçamento coerente com o que tem feito até agora.
[MFP] – E isso quer dizer o quê?
[MC] – Isto quer dizer continuar a apertar, porque se não apertar, temos mais défice, se tivermos mais défice temos que ir pedir dinheiro lá fora, isto é o que ele não perceberam ainda. Sabe que uma grande parte da classe política julga que o défice é um número que se põe num livro da contabilidade, e é. Mas o défice não é importante, o défice não é isso, é que o défice tem que se cobrir com dinheiro emprestado. Há 2 maneiras de corrigir o défice, ou vende cacos, que foi a política da Dra. Manuela Ferreira Leite, andou para aí a vender os cacos que a gente tinha, ou aumenta impostos…
[MFP] – …vender cacos, traduzindo, é receita extraordinária…
[MC] – …vender terrenos, os quartéis, …
[MFP] – …receitas extraordinárias…
[MC] – …mas o que nós temos [actualmente] também são receitas extraordinárias, é uma carga fiscal que não é suportável. Portanto, nós temos uma parte da carga fiscal que é uma receita extraordinária que vamos ter que diminuir…
[MFP] – …vamos ter que diminuir a carga fiscal?
[MC]- …sim, sim porque não é comportável…
[MFP] – …então esta seria uma proposta para este orçamento..
[MC] – …não, agora não. Vamos ter que diminuir…
[MFP] – …mas vamos quando?…
[MC] – …quando os números apontarem para essa possibilidade…
[MFP] – …e quando é que isso acontece?
[MC] – …até agora não vi ainda possibilidades no calendário…
[MFP] – …portanto este orçamento não pode ter baixa de impostos…
[MC] – …eu acho que não. Eu não subscreveria se fosse ministro.
[MFP] – E quais eram as suas apostas se fosse ministro?
[MC] – Não há apostas nenhumas. As minhas apostas não estão aí. Aí tem que ser uma política de rigor. E acho que o ministro das finanças comunga desta ideia, e também me parece que o primeiro-ministro, enfim, se ele não anda a simular… agora, o problema de Portugal não é esse. Esse é um dado que a gente tem que aceitar, com Manuela Ferreira Leite, Teixeira dos Santos ou Campos e Cunha. O que nós temos é de atacar os grandes problemas que não interessa atacar que são aqueles que não dão votos. É o problema dos meninos (não sei se você é mãe) mas estes meninos vão para a escola para vadiar, não é para trabalhar não é para aprender, é para estar lá aos pontapés uns aos outros…
[MFP] – …você até disse uma vez que gostaria de ser ministro da educação durante 2 anos…
[MC]- …sim, dois anos só.
[MFP] – Deixe-me só perguntar, para acabarmos esta entrevista, há quem diga que esta crise é resultado absoluto da falência dos políticos e não da economia. Acha que é? Um défice de política?
[MC] – É difícil responder-lhe porque há uma parte que eu acho que é da responsabilidade dos políticos. Quer dizer esta degradação toda que a gente vê na Europa… a Europa também vale pouco do ponto de vista político porque são os políticos dos países que depois vão para Bruxelas. Se eles não servem nos países e depois vão para Bruxelas como é que nós podemos ter uma politica em Bruxelas que corresponda aos nossos desígnios?
[MFP] – Mas não é só uma pessoa que determina a política…
[MC] – …não mas são vários, porque o s vários países mandam para lá os que lhes convém, e aqueles que lhes convém provavelmente são os que não lhes interessa nos vários países, portanto o sistema político europeu está todo ele entregue à desqualificação. E portanto não há que esperar muito…
[MFP] – …mas isto não é só na Europa…
[MC]- … mas eu vivo na Europa.
[MFP] – Mas gostava de viver em Cabo Verde não é?
[MC] – Em Cabo Verde sim, é a terra dos meus sonhos, a terra dos meus pais…
[MFP] – …apesar de ter nascido na Guiné…
[MC] – …nascido na Guiné mas… a minha terra, olhe a minha terra é um país que comparo a Portugal. São os dois que estão em declínio permanente, eles já estão na droga nós estamos no endividamento.

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5 comentários

  1. Excelente transcrição. Parabéns e obrigado, deve ter sido um trabalho moroso. É bom que estas coisas fiquem registadas por muitos anos, para depois não dizerem que ninguém avisou…

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