O Dever da Verdade


“Isto não tem volta a dar” diz Medina Carreira na sua conversa com Ricardo Costa que foi publicado no livro Dever da Verdade… e se o dever da verdade é dizer-nos que isto não tem volta a dar então ou interpretamos esta afirmação de uma forma literal e estamos tramados, ou interpretamos como uma chamada de atenção muito forte de alguém que já chamou tantas vezes à atenção para alguns problemas do país que já só lhe resta desistir.

Mas acho que este livro é principalmente uma conclusão. Uma conclusão de todos os milhares de estudos, levantamentos e outras consultorias feitas sobre a nossa economia e a nossa sociedade.
E a conclusão é apresentada sem rodriguinhos ou quaisquer necessidades de ser politicamente correcto.

O livro passa por alguns temas da sociedade e economia portuguesa, nomeadamente a questão da educação e dos miticos 6% do pib que tanto ajudaram a ridicularizar o Guterres já que o nosso investimento na educação na verdade é dos mais elevados (a nivel relativo) da europa; e a questão dos funcionários públicos, onde gostei particularmente desta expressão: “Se me ‘parece’ exagerado o número de funcionários [públicos], é ‘seguro’ que custam aquilo que o País não pode pagar.” Contorna a questão de nunca haver número exactos de funcionários públicos e contextualiza-a no ponto mais importante que é quanto é que isso nos custa.

Para além disso alertou-me ainda para uma questão que ainda não tinha assimilado perfeitamente embora tivesse consciencia dela e que tem a ver com o direito à greve. Na verdade, diz, “A greve tende a converter-se um exclusivo do funcionário público.” já que é o único que pode “impunemente” fazê-la.

De qualquer forma, aquilo que mais apreciei foi o enquadramento que explica porque razão, com muita probabilidade, nunca iremos voltar aos gloriosos anos 70 / 80 do grande estado-social. E porque razão muitas reivindicações, formas de actuação e relacionamento entre os actores sociais têm que ser revistas.

“Nos sessenta anos já decorridos depois da Segunda Guerra, a Europa do Oeste conheceu dois períodos distintos: nos primeiros trinta houve prosperidade económica como nunca antes se conseguira, pleno emprego e elevadas taxas de natalidade.
O vigor da economia e do sindicalismo permitiram um ‘compromisso social’ com ganhos para todos. E foi assim, com um capitalismo dinâmico, que os partidos da esquerda democrática registaram os seus maiores êxitos durante e por causa dos ’30 gloriosos anos’.”
“Os europeus pensaram e pensam que todos os benefícios e privilégios era aquisições definitivas e incondicionadas. Não entenderam que houve alterações profundas no mundo, que impõem nos esforços, renúncias, reformas e sacrifícios.”

Quem pensava que tinhamos atingido um patamar ao nível do apoio social, relação empresas / estado desengane-se…


Nome: O Dever da Verdade
Autor: Ricardo Costa, Medina Carreira
Editora: Dom Quixote
ISBN: 978-972-20-3046-5

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