Novela Gráfica?

aqui fica um texto da minha cara-metade sobre novelas gráficas.

Reconheço a minha total incapacidade em conseguir descodificar termos de catalogação sociais.
Distinguir de forma rápida e eficaz entre Góticos, Punks, RockaBillies ou qualquer outra tribo,a partir de referências visuais, sempre me pareceu uma tarefa árdua.

Esta tendência de criar gavetas e compartimentar tudo aquilo que nos rodeia não passa de uma necessidade organizativa compreensível na medida que permite a um maior número de pessoas reconhecer e compreender uma determinada realidade.

No contexto da ilustração, esta mesma necessidade organizacional também existe. Quer por motivos comerciais quer por motivos de organização mental, foi necessário elaborar conceitos e consequentes termos específicos sobre uma determinada matéria, para que fossem apreendidos e posteriormente reconhecidos(1) (evitando assim a permanente repetição da explicação desses mesmos conceitos).

O paradigma da novela gráfica ilustra bem este princípio. Este termo habitualmente pouco aceite pelos autores do género, saiu do anonimato com o livro The Contract With God and Other Tenement Stories(2) de Will Eisner editado em 1978, fortemente inspirado no trabalho artístico desenvolvido por Otto Nuckel, Franz Masareel and Lynd Wrad nos anos 30(3).

Não foi a primeira vez que a junção das palavras “novela” e “gráfica” (4) apareceram para caracterizar este modo de narrativa, mas foi com certeza com esta obra que o termo se popularizou.

Tratou-se pois de definir através de um termo específico, que estávamos perante um tipo de livro, “(…) no qual palavras e imagens estão intimamente ligadas sem que o tom seja necessariamente cómico.(…)”(5) e que contava uma história em tudo idêntica aos romances.

Uma narrativa geralmente longa, com principio, meio e fim que se desenvolve através de tensões, personagens e que sobretudo se afasta dos comics tradicionais. A intenção de valorizar os comics e de o tornar mais digno, esteve na génese da sua criação, tentando distanciar-se dos tradicionais livros infantis e juvenis, propondo um trabalho mais sério, adulto e literário.

Durante os mais de 30 anos da implementação da narrativa gráfica encontramos obras que nasceram de indivíduos, parcerias e conceitos iniciais muito diferentes. Obras de autores que desempenham funções de argumentistas e ilustradores (Jar of Fools, Berlin City of Stones, PyongYang a Journey in North Korea, Palestina, Sin City, Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth, Maus) convivem nas prateleiras das livrarias com as de ilustradores que partindo de obras já existentes as transformam em histórias gráficas (The Great and Secret Show, Cidade de Vidro) e com as de argumentistas que escrevem histórias especialmente para serem ilustradas graficAmerican Splendor, The Sandman).

Independentemente das suas profundas diferenças elas pertencem a um mesmo clube.

(1) Christopher ALEXANDER, Sara ISHIKAWA e Murray SILVERSTEIN, A Pattern Language: Towns, Buildings, Construction, USA, 1977
(2) Curiosamente este livro é considerado por alguns autores (p.e. Art Spielgman) apenas uma compilação de histórias e não uma verdadeira novela gráfica.
(3) Estes autores publicaram nos anos 30 livros sérios (“serious novels” no original) através da arte sem palavras. Will EISNER, The Contract with God Trilogy: Life on Dropsie Avenue, Norton, New York ,2006, pp.16
(4) Richard Kyle,1964
(5) Paul AUSTER, Paul KARASIK e David MAZZUCCHELLI, Cidade de Vidro, Edições Asa, Porto, 2006, Prefácio por Art Spielgman

Fontes
Paul AUSTER, Paul KARASIK e David MAZZUCCHELLI, Cidade de Vidro, Edições Asa, Porto, 2006
Will EISNER, The Contract with God Trilogy: Life on Dropsie Avenue, Norton, New York ,2006
http://en.wikipedia.org/wiki/Graphic_novels
http://lerbd.blogspot.com/
http://www.poynter.org/column.asp?id=57&aid=70817

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