conversa à quinta

resumo: no fundo a nossa conversa acho que rodou um bocado à volta do mercado de trabalho, focando a questão da função pública bem como da existência de recursos qualificados que são forçados a ter empregos não qualificados.

mais algumas questões soltas para pensarmos.

eu tenho como adquirido que, no global, nos últimos 20 anos (desde a entrada na CEE) não houve um eficaz aproveitamento dos recursos que nos foram disponibilizados, principalmente a nivel de educação acho que se investiu na massificação (mais escolas, mais cursos) e na facilitação (toda a gente passa de ano, toda a gente consegue entrar na universidade) e não houve um pensamento estratégico em relação a quais seriam os recursos humanos que o país ia precisar.
a conclusão lógica para mim é que agora há recursos de que o país simplesmente não precisa, seja porque são ultra-especializados, seja porque já existem em excesso.
o que fazer a esses recursos?
por um lado embora aceitando a responsabilidade do estado no sentido de não exercer o seu papel regulador e ter deixado criar dezenas de cursos que no fim não serviram para grande coisa, também me parece que há responsabilidade das pessoas (pais e alunos) por terem aceite e mantido um percurso de facilitismo. e o exemplo mais basico era aquela escolha que toda a gente fazia de ir para letras porque não tinha matemática… claro que é só um exemplo simplista e não representa todas pessoas sem trabalho.
mas voltando à questão do que fazer com esses recursos e vamos alargar um pouco mais o âmbito. não vamos falar só de recem licenciados mas também de trabalhadores cujos conhecimentos por alguma razão estão a deixar de corresponder às necessidades do mercado.
podemos olhar para este problema de duas perspectivas. o que é que essa pessoa pode fazer por si, ou o que é que os outros podem fazer por ela.

o que me pareceu na nossa conversa é que tu olhas para a questão do que os outros podem fazer pela pessoa de uma forma que não é passível de ser aplicada a todas as empresas. a ideia de que, uma empresa que tem um recurso que deixa de necessitar, deve/pode reciclá-lo de forma a utilizá-lo noutra função, é interessante mas, como todas as soluções que envolvem a componente humana e financeira, não é a solução única. algumas situações demonstram-no.
a mais simples é a pessoa não querer ser reciclada, qualquer que seja a sua fundamentação (sempre fez aquilo, tem formação especifica numa área e não quer mudar para outra, etc.).
outra é a empresa não ter essa nova função, ou seja, simplesmente diminuiu o seu volume de negócios ou reduziu o número/tipo de produtos/serviços prestados ou eventualmente eliminou alguma função existente na empresa (através da informatização de um serviço, reformulação de processos, etc.)

vamos no entanto assumir que uma empresa tem um recurso cuja actividade deixou de ser necessária, mas, quer essa pessoa quer a empresa querem continuar a colaborar juntos, e a empresa até tem uma nova tarefa para ela, mas tem que formar primeiro essa pessoa.
o principal entrave aqui será o do tempo que demora uma pessoa a adquirir novos conhecimentos. se esse tempo for financeiramente compativel com a disponibilidade da empresa então não há problema mas se calhar nem sempre é assim. quantas empresas é que têm disponibilidade financeira para tomar esta opção? todas? acho que não.
será que as chamadas microempresas (até 10 trabalhadores) têm a mesma capacidade que pequenas empresas (até 50 trabalhadores) e a mesma que médias empresas (até 250)?

para teres uma ideia, “Segundo dados fornecidos pelo INE, relativos a 1998, a dimensão média das empresas portuguesas é muito reduzida – 10,6 trabalhadores por empresa, valor que desce para 8 trabalhadores por empresa no caso das PME.” (…) “representam 99,5% do tecido empresarial, geram 74,7% do emprego e realizam 59,8% do volume de negócios nacional.” ( http://www.iapmei.pt/iapmei-faq-02.php?tema=7)
por isso é que quando me dizem “se essa pessoa não é necessária nessa função então vamos reciclá-la…” eu torço um pouco o nariz porque para mim essa é uma solução para uma percentagem pequena do problema. não estou a dizer que uma empresa não tenha uma responsabilidade social, mas também sei que nem toda a gente tem dinheiro para ser socialmente responsável. e digo “gente” propositadamente porque para mim uma empresa é um conjunto de pessoas que se juntam para fazer algo comum, aceitando responsabilidades em troca de direitos. não vejo, no geral, o dono de uma empresa como alguém que só quer explorar (negativamente) os seus colaboradores.

resta-nos então saber o que podemos fazer por nós… duas opções básica diria eu.
continuar a procurar melhores oportunidades na mesma localização geográfica, ou procurá-las noutro sitio. sabendo que a definição de melhores oportunidades vai variar muito consoante o tempo que andas à procura e a necessidade que tens de as encontrar.

por Vitor Silva



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