Deus Face à Ciência

“…poderá a ciência por si própria negar a existência de Deus? Finalmente, é para responder a esta questão que este livro foi escrito.” É assim que se nos apresenta este “Deus face à ciência”, objectivo ambicioso mas no essencial falhado, se calhar também porque quem escreveu esse texto publicitário não percebeu bem o que o livro era ou se calhar porque também não é uma pergunta que tenha que ser respondida pela ciência.
Este livro parece-me sobretudo uma história do pensamento científico da igreja católica ao longo dos séculos com uma pequena e interessante anotação em relação a religiões orientais.

E é uma relação curiosa esta que se tem mantido entre a igreja e a ciência ao longo dos tempos, com a ciência a “obrigar” sistematicamente teólogos e crentes a procurar explicações para fenómenos que passam a ser explicáveis pelas leis da matemática e afins.
O livro começa com a história do processo de Galileu com uma interessante desmistificação da pessoa. Sobre o mesmo diz “… Galileu estava «cientificamente» errado, ao mesmo tempo que tinha razão no debate «filosófico», tanto no que diz respeito ao heliocentrismo como sobre a atitude da igreja”.

A atitude que se refere é a de negação sucessiva de factos através da conjectura de explicações mais ou menos literais quer da Bíblia quer dos testamentos numa postura que se calhar hoje nos parece mais familiar quando olhamos para fundamentalistas (que não só os islâmicos).
Esta forma de resolver as questões científicas “fez escola” e pode ser observada ao longo dos diferentes capítulos que abordam as questões da criação do universo (a eterna questão de onde vimos, para onde vamos, que tema mais religioso do que este que nos faz pensar na transcendência); as componentes da matéria (como tudo era fácil quando a palavra átomo tinha um significado literal); a idade da terra (e a contradição clara com os 4000 anos que a Bíblia propõe); e o aparecimento da vida (maior prova da existência de Deus… ou não agora nos dias da clonagem?).

E se esta primeira fase do livro nos leva pela história das relações entre a religião (essencialmente católica mas com uns pozinhos de outras) e a ciência, nos últimos capítulos é feita a análise comparada da evolução cientifica em diferentes partes do mundo: Ocidente (Europa e depois América da Norte), Índia e China. O objectivo é perceber porque razão hoje em dia o ocidente é normalmente considerado como o lugar onde a ciência mais prosperou. São dadas pistas interessantes através da influência da religião na sociedade em que as religiões orientais apelam mais ao conhecimento do próprio homem e portanto uma reflexão interior enquanto “para o judaico-cristão, Deus é o criador do Universo e os seus ensinamentos influem sobre o comportamento humano (…) Ao descrever a aventura humana como uma epopeia guiada pela mão de Deus, a Bíblia faz a ponte entre as religiões que estão voltadas para o cosmos (e as questões que põem sobre as origens) e as que estão viradas para o comportamento do homem no meio da sociedade.”

De qualquer forma lembra-nos ao mesmo tempo de afirmações célebres como “a ciência abafa a simplicidade evangélica” dita por Santo António ou “procuremos a vida antes da ciência”, Santo Ambrósio (que se calhar, digo eu, explica o quase nulo interesse pela ciência em Portugal) para concluir que acima de tudo questões económicas justificam o desenvolvimento da ciência no Ocidente.

Deus Face à Ciência
Claude Allègre

por Vitor Silva



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