Israel, Palestina – Verdades Sobre um Conflito

Comentário escrito inicialmente em 28-Set-2002

Nesta altura em que os EUA fazem da questão Iraque a panaceia para todos os males do mundo já mais do que uma pessoa alertou para a maior importância da resolução da questão israelo-palestiniana. É por isso uma boa altura para ler o livro “Israel, Palestina – Verdades sobre um Conflito”. Este livro, escrito pelo redactor-chefe do Le Monde Diplomatique pretende dar uma visão imparcial história deste conflito que, afinal, já tem quase um século pois foi em 1917 que o governo inglês, então potência administrante da Palestina, declarou pela primeira vez o seu apoio ao estabelecimento na palestina do povo judeu.
Não posso avaliar da imparcialidade do autor, já que não conheço assim tão bem esta realidade, diria talvez que é tendencialmente pro-palestino mas não anti-israelita. De qualquer forma explica a evolução dos acontecimentos durante o sec. XX sendo por isso um livro essencial a quem quer perceber a base desta guerra aparentemente intermin?vel.

Quando hoje se pensa na Palestina/Israel vemos por vezes a questão do território como uma questão do género o ovo e a galinha, ou seja qual é que apareceu primeiro, ou, neste caso, quem é que ocupou primeiro o território. No entanto aqui as coisas são bastante claras, os árabes já lá estavam.
Podemos começar por tentar avaliar a situação com os olhos do homem colonizador do fim do século XIX, início do século XX que via o homem não europeu ou americano como um “selvagem” que precisava de ser ajudado a encontrar o caminho da ocidentalização. Isto levava a que se olhasse para o território palestino (mesmo já estando ocupado) como algo que estava a ser subaproveitado pelos povos mais “atrasados” que já lá estavam fixados e que, portanto, não seria nenhuma invasão a entrada de um povo visto como mais ocidental – superior – para essas terras.
A Grã-Bretanha, potência administrante, facilitou então o processo de “anexação” da Palestina pelos judeus.
No início dos anos 20 já tinha sido criada uma entidade judaica com o objectivo de organizar e fomentar a imigração bem como promover a aquisição de terras onde posteriormente era encorajada a utilização de mão-de-obra exclusivamente judaica. A inexistência de uma organização palestina que representasse as diferentes facções criou grandes dificuldades para que a sua voz fosse ouvida num ambiente já de si adverso.

Em 1937, na sequência do crescimento do sentimento de revolta palestiniano a Grã-Bretanha, ainda mediadora do conflito propõe a divisão da Palestina em 2 estados independentes, mantendo-se Jerusalém sob o mandato britânico.
Todos nós já ouvimos este tipo de propostas nos dias que correm, e provavelmente soam-nos razoáveis, mas será que nós acharíamos razoável que um país qualquer decidisse invadir o nosso e depois propusesse resolver as coisas ficando “apenas” com metade do que tinha invadido?
Naturalmente esta proposta resultou em violência árabe contra quer forças britânicas quer colonatos judeus.

Entretanto acaba a 2ª Guerra Mundial e torna-se insustentável à comunidade internacional rejeitar as pretensões judaicas de ter um estado próprio. A pressão vai aumentando à medida que os sobreviventes dos campos de concentração que, certamente, prefeririam ir viver para os EUA ou outros países europeus (desejos esses recusados) se encaminham para a sua terra prometida, “alimentando” demograficamente o seu país. Esta pressão demográfica inverte definitivamente o rácio judeus/árabes no território palestino criando uma situação de facto de domínio judeu.
A ONU entra finalmente em cena em 1947 depois da Grã-Bretanha se declarar incapaz de resolver o problema, só que tudo joga contra os palestinianos: as suas divisões internas; o drama judaico pós 2ª Guerra Mundial; ou a visão ainda colonialista que vê o progresso judaico como o caminho a seguir por oposição à tradição árabe.
O resultado é uma resolução que propõe a divisão do território numa proporção de 55% para um estado judaico e o restante para os palestinianos. Sob pressão dos EUA a resolução é aprovada.
Neste cenário está tudo a postos para a primeira guerra israelo-árabe, uma guerra que lança o mito da invencibilidade e do poderio militar israelita.
Como qualquer mito, este também vive de verdades e equívocos. O principal tem a ver com o facto de Israel defrontar todos os países árabes ao mesmo tempo, quando o que se passou, isso sim, foi que cada um dos países árabes tinha a sua agenda e os seus objectivos, a Jordânia por exemplo queria uma parte do Palestina e “alinhava com os israelitas para esmagar os palestinianos”; outros países tinham outras ambições ou viam o problema palestiniano como um pormenor pouco importante nas relações com os seus vizinhos.
Por outro lado para além da organização, o exercito israelita era mais numeroso que o total de forças árabes no teatro de operações.
Finda a guerra Israel passa a ocupar 78% da Palestina.

O problema Palestina vai-se arrastando assim ao sabor das diferentes estratégias dos países interessados: Israel, países árabes, EUA, Europa. Só que o médio oriente é uma zona demasiado instável para que qualquer um dos intervenientes possa fazer algo de verdadeiramente revolucionário no sentido da resolução do conflito, e a aplicação prática da real politik leva ao aparecimento a médio prazo de contradições que torna ainda mais difícil a resolução dos problemas como se pode ver em situações como o Afeganistão ou o Iraque inicialmente apoiados pelos EUA e agora convertidos no “eixo do mal”.
Entretanto, e para a geração que desde sempre viveu em campos de refugiados submetida ao poder discricionário israelita, o sentimento de revolta é natural. Já o diz a declaração francesa dos direitos do homem e do cidadão de 24 de Junho de 1793: “Quando o governo viola os direitos dos povos, a insurreição é para o povo, e para cada sector popular, o mais sagrado e inalienável dos direitos”. Certamente que não estariam a pensar em atentados terroristas na forma que os conhecemos hoje.
A fórmula para resolver este problema é certamente muito complexa e implicará que quer uma parte quer outra abdiquem de muitas reivindicações. A questão que se levanta é se será que ainda falta muito para chegarmos ao ponto de não retorno.

Várias questões paralelas ficam no ar: o porquê da necessidade de um estado para uma religião?; porquê manter ainda hoje um estado não laico?; de que forma o holocausto tem sido usado como justificação de alguns actos judaicos?; não poderão algumas acções de repressão israelitas ser classificadas como crimes de guerra ou violações aos direitos humanos?; não terá a necessidade de território e a forma como Israel o tem conquistado uma semelhança com a invocação do espaço vital que Hitler fazia?;

Israel, Palestina – Verdades Sobre um Conflito
Alain Gresh
Campo das Letras

por Vitor Silva



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