4 contos de puchkine

Autor de poesia revolucionária, poemas românticos e dramas históricos, este livro é representativo do ecletismo de Puchkine, não só no que diz respeito à forma (o conto por oposição à poesia ou ao romance) mas também no que diz respeito ao conteúdo.
Embora sempre centrado na sociedade russa, cada conto explora um aspecto particular dessa sociedade, transportando-nos facilmente para o início do século XIX através da sua escrita fluida. Essencialmente trata-se de um livro com quatro boas histórias que se lêem num fôlego.

A pessoa
Romanesca é o mínimo que podemos dizer da vida de Puchkine.
Nascido em finais do século XVIII (Moscovo, 26 Maio de 1799), filho de pai nobre e de mãe descendente de príncipe abissínio, teve o privilégio de ter a melhor educação possível na Rússia da altura ganhando rapidamente notoriedade através dos seus escritos.
Embora bon-vivant, os seus poemas de carácter revolucionário onde exaltava a liberdade e criticava figuras públicas valeram-lhe alguns anos de exílio (1820-1826) que, no entanto, foram aproveitados para desenvolver mais algumas das suas obras.
Em 1826 o novo czar Nicolau permite que Puchkine regresse a Moscovo. Aqui, embarca na procura de uma esposa, que, diz-se, teria de ser não menos do que a mulher mais bonita da Rússia. Essa beleza viria a ser, no entanto, decisiva no rumo da sua vida.
Tendo começado por morar em Moscovo, os Puchkines mudaram-se para Tsarkoe Selo de forma a viver perto da capital mas num ambiente mais inspirador e sem a confusão de uma cidade grande. No entanto estas expectativas saíram frustradas devido ao surto de cólera em S. Petersburgo e que obrigou o czar e a sua corte a mudarem-se para a cidade de Puchkine.
Participantes assíduos dos eventos sociais, onde a beleza de Natalia Goncharova, sua esposa, rapidamente se fez notar pelos membros da corte, czar incluído, as necessidades financeiras de Puchkine aumentaram de forma substancial a ponto de ter que contrair um empréstimo volumoso com vista a pagar algumas despesas correntes.
Para além da questão financeira, outros problemas de honra se punham a Puchkine, na pessoa de d’Anthes-Heeckeren. Durante dois anos d’Anthes cortejou mais ou menos abertamente Natalia Goncharova a tal ponto que Putchkine teve, como era usual na época que o desafiar para um duelo.
Parecia que Puchkine tinha escrito o seu próprio futuro no conto “O tiro”. Nele, um oficial que tinha sido injuriado espera pelo seu duelo, mas quando tinha a oportunidade de vingar com sangue a sua honra satisfaz-se com simples esgar de medo do seu adversário.
Só que a vida real tem a mania de ser mais dramática que os livros e Puchkine não teve a mesma sorte que o seu personagem. Atingido em 27 de Janeiro de 1837, morre dois dias depois.
A sua curta vida não o impediu de se tornar num dos grandes autores russos.

O livro
Autor de poesia revolucionária, poemas românticos e dramas históricos, este livro é representativo do ecletismo de Puchkine, não só no que diz respeito à forma (o conto por oposição à poesia ou ao romance) mas também no que diz respeito ao conteúdo.
Embora sempre centrado na sociedade russa, cada conto explora um aspecto particular dessa sociedade, transportando-nos facilmente para o início do século XIX através da sua escrita fluida. Essencialmente trata-se de um livro com quatro boas histórias que se leêm num fôlego.
“A Tempestade de Neve”, primeiro conto do livro, é um romance no sentido “amoroso” da palavra. Uma paixão proibida entre dois jovens que se decidem a ultrapassar as restrições que os pais da jovem donzela lhes põem e resolvem casar-se. Só que na noite combinada para iniciar a sua nova vida uma tempestade impede que o noivo chegue ao local que tinham combinado para dar o nó, mas, por mais inverosímil, dramático ou cómico que pareça, não impede que um casamento seja feito.
Embora também circule à volta do amor, o segundo conto, “O Tiro”, tem mais a ver com as questões de honra. Nele, um oficial que tinha sido injuriado espera pelo seu duelo, vivendo a sua revolta diariamente, até à altura em que ele se concretiza. No entanto, quando tinha a oportunidade de vingar com sangue a sua honra, satisfaz-se com simples esgar de medo do seu adversário: “… estou satisfeito: vi-te perturbado, com medo … estamos pagos. Lembrar-te-às de mim. Entrego-te à tua consciência.”
O jogo, a vida dos oficiais da altura e, principalmente, a avareza são o ponto de partida para o peníltimo conto, “A Dama de Espadas” onde podemos também notar a exploração do fantástico como elemento do conto. A história é singela, quase parece um conto tradicional e relata a histária de um oficial que, sabendo que uma condessa guarda um segredo que lhe permitiria ter um resto de vida folgada monta um conjunto de estratagemas de forma a obtê-lo, mas tudo tem um custo, e o custo desse segredo é uma “quase” maldição que ele não conseguirá cumprir.
Por último em “A filha do capitão” temos um romance heróico: a história de um jovem que é enviado para um fortaleza no meio da Rússia para cumprir a recruta.
É nos dado o retrato da vida que o jovem aí leva, desde a sua viagem até á fortaleza, o dia-a-dia nela, o seu relacionamento com os restantes oficiais, pacífico excepto com um deles, o seu namoro com a filha do capitão e as lutas com os rebeldes cossacos liderados por Pugatchov. Este conto pode ser encarado como um arquétipo da temática de Puchkine ao “cantar” a história russa e é considerado o primeiro exemplo importante de romance em prosa em língua russa.

A obra
Quando terminou os estudos em 1817, Puchkine era já considerado uma grande promessa da literatura russa, promessa essa que se veio concretizar em 1822 com a publicação do poema Ruslan e Lyudmila, poema que deu início ao género narrativo em verso, combinando material temático dos contos populares russos com temas da épica italiana e da língua coloquial russa com elementos léxicos de procedência francesa.
Por esta altura Puchkine era considerado como a voz de todas as esperanças de liberdade que tinham aparecido depois da bem sucedida guerra contra Napoleão.
Deste período datam o escandalosos e delicadamente pornográfico Graviiliada bem como os poemas “sulistas”, ou mais propriamente “byronicos”.
Entretanto Puchkine tinha sido enviado para o sul da Rússia onde começou a redigir Eugene Onegin mas o trabalho que mais tempo lhe absorvia era o drama Boris Godunov. Foi talvez o impacto da obra de Shakespeare que o levou a escrever esta peça, que ele considerou a sua obra-prima e que marcou a derrota do romantismo na poesia de Puchkine e a introdução do realismo na literatura russa.
O seu trabalho Eugene Onegin ia entretanto sendo publicado capítulo a capítulo sendo terminado somente em 1833. Este trabalho, sendo de grande significado literário, tem a particularidade de ir refletindo o desenvolvimento da própria personalidade de Puchkine. Embora todo o trabalho de Puchkine seja o ponto de partida de toda a literatura russa moderna, Eugene Onegine representa “simplesmente” o escrito mais importante em russo.
No período 1825-1830 Puchkine escreveu um conjunto de poemas dramáticos, incluindo Mozart e Salieri. Em 1827 escreveu o romance histórico Mouro de Pedro, o Grande, em que o herói é o seu bisavô.
Puchkine interessa-se pela rebelião de Pugachev, um cossaco que tinha servido no exército czar e que iniciou uma rebelião contra a czarina Catarina no sul da Rússia. Este cossaco que começou com cerca de 80 homens rapidamente conseguiu para as suas fileiras 30.000 soldados mas foi traído pelos seus pares e executado em Moscovo. Esta História resultou no conto “A filha do capitão” 1836, primeiro exemplo importante de romance em prosa em língua russa.
Cada vez mais Puchkine se voltava para a prosa e tornava-se um mestre nos contos sendo a Rainha de Espadas um dos seus mais famosos. No entanto não tinha abandonado por completo a poesia. Os Contos do Pescador e do Peixe 1835 mostram com que arte ele podia reescrever os contos populares, e no poderoso poema simbólico O Cavaleiro de Bronze (publicado só depois da sua morte) ele produz a sua última obra-prima poética, classificada por alguns críticos como o melhor poema de toda a literatura russa.
Como um escritor Puchkine, para além de mudar o curso da litertura russa foi também um dos poetas supremos da Europa. Mais do que isso, ele foi um dos raros grandes poetas que, como Shakespeare, parecem conseguir agrupar no seu trabalho toda a natureza do povo e do seu tempo e assim tornar-se ao mesmo tempo intemporal e universal. Provavelmente a forma incisiva com que encarava a vida e a objectividade com que escrevia sobre ela permitiu-lhe soltar-se dele próprio e através da sua individualidade transcender o indivíduo.

Palavras novas ou revisitadas:
Samovar – recipiente que serve para manter um líquido quente, normalmente café ou chá, originário da Rússia.
Versta – medida itinerária da Rússia equivalente a 1067 metros.
Hussardo – soldado de cavalaria ligeira, na Alemanha e na França; cavaleiro húngaro.
Pope – sacerdote ortodoxo russo.
Agrimensor – aquele que mede terras.
Troica
Epigrama – pequena composição poética, crítica ou mordaz, do género satírico; dito picante; inscrição em prosa ou verso, na face de um monumento.
Whist – jogo de cartas parecido com o da bisca.
Kibitka – carruagem
Mujique –
Armiak – casaco de lã, usado antigamente pelos camponeses.
Cossacos –

por Vitor Silva



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