Juntos Sozinhos

Um tema sempre interessante quando falamos sobre tecnologia é perceber a forma como ela nos influencia. É verdade que a tecnologia por si só não é boa ou má mas aquilo que permite fazer altera e condiciona muito do que fazemos, inclusivamente o relacionamento com outras pessoas.

Sherry Turkle, é uma das pessoas que tem estudado esse fenómeno. Não numa perspetiva apocalítica de que todas as redes sociais são más e a tecnologia é má mas sim numa perspetiva de cartografar e identificar aquilo que muda no nosso comportamento com a utiização massiva da tecnologia e em particular, nos dias de hoje, das comunicações móveis.

É certo que a sua pesquisa ocorre essencialmente nos EUA pelo que poderá ter resultados não diretamente aplicados à Europa ou Portugal mas ainda assim revela pormenores interessantes que podem ser lidos no seu último livro “Alone Together: Why We Expect More From Technology And Less From Each Other“, ou neste podcast da London School of Economics ou neste video TEDxUIUC.

Do podcast que ouvi, para além de algumas histórias interessantes sobre o (quase) inicio da era tecnológica e de um brainstorm em particular sobre o tema “thinking of ways to make technology busy” ou seja perceber como poderia ser usado o computador pessoal – quando na verdade hoje “technology is making «us» busy” e “we (human) are their (computers) killer app” – ou do efeito “toque fantasma” parecido com o efeito “membro fantasma” de que sofrem pessoas que sofreram amputações, retive algumas ideias importantes.

A primeira sobre a forma como a tecnologia nos seduz, envolve e “domina”.
Muitas vezes comparada com uma dependência, uma espécia de droga, até pelo facto haver uma reacção química parecida quando usamos estas tecnologias, Sherry Turkle aponta uma diferença fundamental. Enquanto que para ultrapassar as adições habituais, a receita envolve essencialmente deixar de usar aquilo a que nos tornamos viciados, no caso da tecnologia isso será virtualmente impossível e mesmo, pareceu-me, na sua opinião indesejável, porque esta tecnologia já é parte de nós e pelo impacto globalmente positivo deste mundo always-on, always connected. Assim, em vez de viciados, nós somos seduzidos, e mais seduzidos na medida em que as “affordances” da tecnologia apelam às nossas vulnerabilidades – “technology is seductive when its affordances meet our human vulnerabilities”.

Isto leva à segunda ideia importante que é perceber como é que as tecnologias nos influenciam e nos estão a moldar. Um pormenor que achei curioso, foi a referência ao impacto que algumas tecnologias têm nas diferentes camadas etárias. Facilmente visualizamos os jovens colados ao telemóvel no facebook, ou a enviarem mensagens para uma pessoa que está na mesma sala que eles, mas um relato do tipo “they (kids) miss their dads, dads used to watch sunday sport with them, but now”… agora aproveitam para atualizar o seu status no facebook, relatos destes são sem dúvida perturbadores.
Da sua pesquisa, Sherry Turkle acrescenta ainda que não é pouco comum as pessoas queixarem-se que se sentem demasiado ocupadas a comunicar para poder… pensar… criar… ou até ligar-se às pessoas que realmente interessam.

Como resolver este paradoxo? Não consigo deixar de pensar em coisas tão diferentes como o movimento slow-food, ou a ideia de decrescimento sustentável… no fim talvez com uma dieta digital isto se resolva.

(publicado inicialmente em http://feedthereader.com/2012/05/juntos-sozinhos/)
(imagem retirada de http://www.strozzina.org/identitavirtuali/e_education.php)

por Vitor Silva



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