Doutrina do Choque

A realidade é mais estranha que a ficção, acho que é a forma como posso encarar este “Shock Doctrine” de Naomi Klein.
Assim como em No Logo que tinha lido, também esta Doutrina do Choque é um livro extenso, de mais de 450 páginas a que acrescenta mais umas cinquenta de referências.

A tese geral do livro é que a aplicação das ideias ultra-neo-(escolher adjectivo)-liberais preconizadas essencialmente por Milton Friedman tem efeitos largamente negativos para a maior parte da população (classes média e baixa) só aproveitando a uma pequena elite, sendo a sua aplicação somente exequivel em cenários de redução de direitos cívicos, guerras ou aproveitamento de catástrofes naturais.

Diria que este livro pretende ser uma especie de livro negro do “friedmanismo” (à semelhança do livro negro do comunismo e livro negro do capitalismo) questionando o custo humano que a implementação das ideias da Escola de Chicago tem/teve nos diferentes países em que foi testada.

Através da sua pesquisa, Naomi Klein cria um nexo causal que inicia nas expêriencia dos anos 50 de Ewen Cameron sobre a forma como a mente humana responde a estimulos e como se conseguiria reprogramar o cérebro das pessoas de forma a introduzir novas ideias, passa pelo Kubarc, manual de interrogatórios (ou de tortura) da CIA criado nos anos sessenta, leva-nos à América Latina dos anos 70 (Chile, Argentina, …) e ao apoio dos EUA às ditaduras militares (ou económicas), ao reaganismo e thatcherismo dos anos 80, transições da Europa de Leste e fim do apartheid dos anos 90, catastrofes naturais do inicio do século (Tsunami asiático de 2004 e furacão Katrina em 2005) e finalmente a guerra privada (porque feita em outsourcing) do Iraque.

E esse nexo é a Escola de Chicago, os seus promotores (com Milton Friedman à cabeça), juntamente com as relações próximas com a política norte-americana (Cheney, Rumsfeld,,…) e os seus serviços secretos durante toda a segunda parte do século XX.

No final é uma demonstração que a ideia do laissez-faire, ou que o mercado resolve tudo, é ela própria uma escolha (normalmente pelos seguidores da mesma ideologia) e por isso não difere particularmente da escolha de ser o Estado a gerir / regular algumas partes da economia.

por Vitor Silva



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