Ecologia

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Ribeiro Telles – A ecologia surgiu como a ciência que estuda as relações entre os seres vivos e entre estes e os seus habitats
A visão renascentista da Natureza tinha-se interessado principalmente pela classificação sistemática das espécies animais e vegetais tendo em atenção, especialmente, as particularidades morfológicas de cada uma. A Natureza tinha deixado de ser compreendida como uma unidade animada pela vida para passara a ser empacotada em gavetas correspondentens a cada género e a cada espécie. A alma e a unidade da visão grega tinham-se perdido.
Mais tarde, o evolucionismo estabeleceu uma relação vertical entre as diferentes espécies, tendo mesmo procurado reencontrar troncos ultrapassados pelo tempo e pelas modificações ambientais.
A ecologia vem refazer a ideiade unidade, relacionar a depend~encia de umas espécies com outras, investigando e relacionando cadeias alimentares e nichos perenes ou temporais indispensáveis ao processo da vida. Vem estabelecer o conceito de equilíbrio biológico, em cada lugar, como meta a atingir pela própria dinâmica natural.
Como ciência, a ecologia surge num momento em que o crescimento da população mundial e o desgaste, ou mesmo a destruição, dos recursos naturais pareciam conduzir a Civilização a um fim trágico. Se bem compreendida, ela constituiria o caminho que, a seguir-se, poderia reencontrar a harmonia entre a Humanidade e a Natureza. Para isso havia que travar o aumento da população mundial e o crescimento da economia.
Tais ideias abrem lugar a uma política ecológica e a uma nova ideologia que exige a transformação das mentalidades. Ideologia que não responde a todas as utopias da inquietção humana nem ao pragmatismo dos programas de acção política que, para cada tempo, proclamam a justiça e pugnam pelo progresso A ideologia ecológica, para muitos, é um retrocesso à Natureza.
Mas que lugar terá o Homem, em face duma política baseada nos princípios ecológicos? Deverá procurar um lugar imposto pela sua condição biológica, ou seja, inserido na cadeia ecológica como um dos seus elementos? Ou, pelo contrário, deverá impor-se como o centro de todas as mudanças, apesar de não poder libertar-se da condição biológica essencial à sua existência?
Considero impensável a integração do homem na Natureza como mero elemento da cadeia ecológica de dependências, tal como pretende uma “ecologia profunda”, fundamentalista.
Há muito que as comunidades humanas vêm criando, muitas vezes sabiamente, paisagens em que o respeito pelas Leis da Natureza e pela biodiversidade são primordiais. Há muito que a Natureza sofreu ou beneficiou com a actividade humana. A responsabilidade do Homem para com a Natureza deve ser criativa porque lhe poderá dar formas mais convenientes e intensificar a actividade biológica dos sistemas ecológicos, mesmo dos impostos pelas suas necessidades, mas sempre respeitando aquelas leis.
A paisagem, criação humana, tem como paradigma a beleza, a biodiversidade e o equilibrio, o que exige a regeneração dos recursos vivos. Não nos devemos esquecer que a fertilidade do Éden e a imagem do paraíso perdido serão em cada época o sentido da busca e o “eco” ideial da Humanidade. Entre a “ecologia reformista” e a “ecologia profunda” propomos a “ecologia humanista”.

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Ribeiro Telles – A ecologia política, como ideologia, mais que dos problemas do relacionamento dos homens entre si, remete para uma ética do relacionamento dos homens com a Natureza, da qual depende a existência de vida na Terra. É mais uma cultura de vida do que um contrato social. Daí resulta a dificuldade de cirar um partido ecologista ao lado de partidos não ecologistas ou antiecologistas mais preociupados com o curto prazo e com o bem-estar material da sociedade, em cada momento, do que com o futuro.
No entanto, a ecologia aplicada, através do ordenamento da paisagem, deverá ser considerada tão básica no desenvolvimento económico e social como a democracia o é no plano político. O entendimento entre os homens e destes com a Natureza é fundamental para se encarar com esperança o futuro.

in, Ecologia e Ideologia
Domingos Moura, Francisco Ferreira, Francisco Nunes Correia, Gonçalo Ribeiro Telles, Viriato Soromenho-Marques
Livros e Leituras, 1999

por Vitor Silva



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