A Ecologia na Politica

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Soromenho-Marques – Em Portugal, e custa-me dizê-lo porque foram muitos anos da minha vida que a isso dediquei, a eventual criação de um partido ecologista carece de justificação. Por razões conjunturais e estruturais.
Verificou-se, em Portugal, uma conjugação desfavorável à causa de um partido ecologista, isto é, a explosão do movimento ambientalista coincidiu com a explosão democrática. Poder-se-ia pensar que, da mesma maneira como permitiu a Portugal reencontrar os restantes países da Europa democrática, com os seus partidos, as suas organizações sindicais, etc., o 25 de Abril de 1974 seria também um incentivo a que, no seio dos novos mocimentos sociais, se desencadeassem forças capazes de adoptar um modelo de partido. Não foi assim. No caso português, os velhos, os convencionais movimentos sociais, esgotaram o espaço político-partidário, de uma forma consistente. Tirando proveito, aliás, de uma legislação que os favoreceu por completo.

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Francisco Ferreira – A actuação política das ONG, no sentido de procurar marcar a agenda, faz-se, por outro lado, de uma forma múltipla. Não se limita à comunicação social. Faz-se, via lobby, junto dos decisores. Faz-se, directamente, junto da opinião pública, junto do Governo, junto dos partidos políticos. Mas o seu principal mérito advém, sem dúvida, dessa possibilidade de se situar no médio e no longo prazo. De determinar a agenda no médio e no longo prazo. As ONG podem pronunciar-se, pontualmente, sobre impactes ambientais, sobre ocupação de leitos de cheias, por exemplo. Para além de múltiplas propostas sobre aspectos precisos, assumem, porém, posições de mais longo alcance. Quando olham criticamente para o ordenamento do território. Quando avaliam um PDM, Quando comentam um projecto de lei. Quando denunciam o eventual incumprimento de disposições legais. Assim, ao longo de um tempo que, naturalmente, extravasa ciclos eleitorais, vão-se conseguindo ganhos de agenda. De uma forma eficaz, por vezes, menos visivel. Mas, nem por isso, menos eficaz.
Evidenciar o papel da ONG não significa instituí-las em proprietárias da intervenção pública no ambiente, o que implicaria uma certa desresponsabilização dos outros agentes.

in, Ecologia e Ideologia
Domingos Moura, Francisco Ferreira, Francisco Nunes Correia, Gonçalo Ribeiro Telles, Viriato Soromenho-Marques
Livros e Leituras, 1999

por Vitor Silva



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