Regionalização – No Silver Bullet

De forma a perceberem um pouco de onde vêm as minhas ideias deixem-me dar uma visão geral daquilo que eu faço e do sector de actividade em que exerço essa actividade.

Eu considero-me um software developer (desenvolvedor de software não soa muito bem) já que independente do nome que queira atribuir à minha profissão, no fim do dia, para sentir que estou a cumprir com a minha tarefa eu olho para a quantidade/qualidade de código que escrevi e vejo se o resultado responde com as expectativas das pessoas que me pediram (indirectamente) esse código.

Trabalho portanto na de desenvolvimento de software, essa mesma que é famosa por uma estatística arrasadora que diz que 90% dos projectos acabam fora de tempo e/ou fora do orçamento.
Embora, em grande parte, até hoje, esse tipo de investimento ainda resulte na criação de valor para quem o adquire – enfim talvez seja simplesmente o resultado de estarmos ainda numa fase inicial da lei de utilidade marginal.

Com estas caracteristicas imaginam o stress de qualquer gestor de projecto, que nunca sabe quando os projectos vão acabar (porque agora o “quanto” é logo fixado no inicio do projecto); ou a desmotivação acumulada ao longo de diferentes projectos que qualquer director de recursos humanos tem que gerir na sua equipa de desenvolvimento.

Neste contexto imaginam que a preocupação em encontrar novas formas de trabalho / metodologias que mitiguem ou eliminem todos os constrangimentos que levam à tal percentagem de 90% de projectos (quase) falhados seja algo de muito presente nesta área.

E essa preocupação não é de agora, sec.xxi, nem tão pouco fins da década de 90 e dotcoms, é mais antiga e um dos exemplos mais conhecidos é um artigo de 1986 chamado “No Silver Bullet” de Frederik P. Brooks.

Nesse artigo é referido:

“There is no single development, in either technology or management technic, which by itself promises even one order-of-magnitude improvement within a decade in productivity, in reliability, in simplicity.”
“Skepticism is not pessimism, however. Although we see no startling breakthroughs, and indeed, believe such to be inconsisten with the nature of software, many encouraging innovations are under way. A disciplined, consistent effort to develop, propagate, and exploit them should indeed yeld an order-of-magnitude improvement. There is no royal road, but there is a road.”

E é aqui que eu faço o paralelismo com a regionalização.
Como tem sido dito por praticamente todos os oradores das Conferências sobre Regionalização da BMAG, a regionalização não é a panaceia.
Isto é, não há uma medida única que resolva as questões que nos fazem pensar se a actual organização do estado é a melhor para o país como um todos, nomeadamente:

  • atenção à especificidade de cada uma das regiões (e aqui deve ler-se freguesia / concelho / agrupamento de municípios / província)
  • atribuição de competências para as regiões
  • transferências de direitos para as regiões
  • resposta em tempo útil às necessidades de cada uma das regiões
  • compatibilização das diferentes necessidades das regiões com o dinheiro necessário para as resolver

De qualquer forma, o que parece evidente, é que a estrutura actual não tem conseguido responder de forma aceitável às necessidades básicas de um estado de direito:

  • assimetrias territoriais (litoral / interior)
  • assimetrias distribuição de rendimentos
  • acesso a cuidados de saude (quer a nivel de capacidade financeira, quer ao simples chegar ao local fisico)
  • acesso a justiça (quer a nivel de capacidade financeira, quer ao simples chegar ao local fisico)
  • mobilidade (principalmente porque intereage directamente com os dois itens imediatamente anteriores)

O que me parece certo é que praticamente em todas as regiões (e incluo naturalmente a região de lisboa e vale do tejo) há uma ideia de que o recurso dinheiro não está a ser aplicado nos temas correctos nem tem um distribuição territorial normalmente justificavel por parametros como densidade populacional, rendimento disponivel per capita, percentagem do pib, taxa de desemprego.

Será então a solução regionalizar já e em força? Sim / Não / Talvez.
Para além do mapa que irá surgir sempre para nos atormentar, é fundamental saber o que queremos que as regiões façam e que condições terão para o fazer.
De outra forma qualquer discussão sobre o tema é uma simples conversa de surdos.

por Vitor Silva



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