Natureza

Uma das principais ideias que retive das duas conferencias que assisti em serralves no tema da ecologia (timothy gold, baird callicot) foi a de natureza não como algo cristalino e intocável mas como ser em constante mutação e evolução. Claro que esta pode ser uma ideia perigosa quando usada pelos que não consideram a actuação actual do homem como globalmente prejudicial para a saúde do planeta. A ideia é que se a natureza está sempre em mutação como podemos garantir que o que está a acontecer é da responsabilidade? Já agora, para além de admitir que não temos que olhar para a natureza como intocável, também ficou a ideia que o planeta irá sobreviver há espécie humana por isso a questão se calhar não é tanto que futuro queremos para o planeta mas sim que futuro queremos para a nossa espécie.
Estas ideias vieram um pouco à baila ao abordar qual o âmbito que a palavra ecologia queria dizer na Europa e na América do Norte. Enquanto que na Europa, principalmente Europa Central e Reino Unido é quase impossível invocar a imagem de uma floresta intocada já que quase de certeza ela foi explorada agricolamente de forma mais ou menos extensiva e mais ou menos constante seguramente à meia-dúzia de séculos, na América do Norte, a vastidão dos seus países (EUA e Canadá), a reduzida densidade populacional autoctone bem como a chegada massiça de um/vários povos que desconheciam por completo o terreno contribuiram para a criação do mito da natureza pristina e pura.
Em relação a esta ideia não deixa de ser curiosa a seguinte passagem referente ao sobreiro em Portugal.

“Em Portugal, quando se fala de sobreiro, a todos ocorre a imagem do montado de sobro alentejano, com o arvoredo disperso nas ondulações da cultura agrícola, uma paisagem onde se deu a transformação da floresta em pomar e onde se associam as actividades agrícola e pecuária numa tradicional multifuncionalidade de planície.
O montado de sobro é um sistema de uso múltiplo agro-florestal típico das regiões planas mediterrânicas-continentais, criado pela intervenção do homem e com uma tendência cultural extensiva.
É um ecossistema artificial, no sentido de que as suas características são o resultado de intervenção humana continuada, frágil e de lenta renovação, cuja característica dominante é a presença de sobreiros em povoamentos abertos e irregulares e com um sub-coberto constituido por matos, cultura agrícola ou pastagem.”

Ou seja o tradicional também pode ser resultado do artificial. O que temos hoje por tradicional e resultado da acção auto-suficiente da natureza pode por vezes ser apenas o resultado da intervenção do homem e mesmo assim ser sustentável.
Claro que estas nuances são dificeis de explicar, como é que em certos casos a intervenção do homem na natureza pode ser boa e noutras não. Como é que avaliamos o impacto real das nossas actuações? É cada vez mais evidente para mim que, no curto / médio prazo essa avaliação tem que ser económica já que essa é a única linguagem que os principais actores da nossa sociedade (estado, empresas, sociedade civil) entendem, mas por outro lado também me parece evidente que a verdadeira resposta não é da economia, nem da ciência mas sim da ética e/ou moral individual. Só que isso demora não anos mas gerações a formar.

por Vitor Silva



3 Comments

  1. João Soares wrote:

    Caro Víctor
    Sem dúvida e não ignorar contudo a elevada taxa de crescimento da população humana.
    Mas de facto assistimos a um mundo algo bipolar: nunca o séc.XX foi tão pródigo em avanços em grande escala do melhor em direitos humanos, tribunal de Haia, fora mundiais, direitos dos animais, de maior respeito pelo uso de recursos energétiocs, naturais (água, ar, etc..), conservação de recursos (separação dos lixos, uso de materiais reciclados, etc) e em educação ambiental como em tragédias mortais e devastadoras: Hiroxima, I e II guerras mundiais, as minas…o Iraque, etc…
    Será a violência e mudança pelo sofrimento uma característica do humanismo?

  2. vitorsilva wrote:

    >>Será a violência e mudança pelo sofrimento uma característica do humanismo?

    apesar de tudo não acho que seja. o que acho é que o que é mau tem normalmente mais impacto e melhor publicidade do que o que ocorre de bom…

  3. Buen post, las ideas son muy relevantes. http://FundacionAsis.Org

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