Jugoslávia

Há momentos que, vá-se lá saber porquê, ficam gravados na nossa memória de forma quase fotográfica, como por exemplo uma manhã solarenga do verão de 91 ou 92 em que estou na sala de convivio do Parque de Campismo da Apúlia, sentado num banco corrido virado para o jardim a ler o Público, na altura em que ainda trazia um suplemento temático por dia (às segundas era economia, às quintas informática se não me engano) e ver umas notícias sobre a guerra da Croácia.

Relembro que essa é a altura em que eu e talvez as pessoas da minha geração são introduzidas às noticias da guerra. E se calhar o nosso azar foi termos apanhado com um guerra fácil… a primeira Guerra do Golfo.
Guerra fácil porque o “algures na Arábia Saudita” era geograficamente longe, aparentemente asséptica com os misseis teleguiados melhores que qualquer jogo computador da altura, e em que claramente identificavamos o mauzão (saddam) e os bons (americanos). E para além disso tinhamos os briefings diários e a ideia de transparência dos bons e os patriots e a ideia de inocência de quem só se defendia porque era vilmente atacado.

E se calhar o azar da Europa foi ter apanhado com um guerra fácil onde toda a gente estava de acordo com o que se tinha que fazer e, melhor do que isso, onde a Europa não teria que sujar muito as mãos: “US troops represented 74% of the coalition’s 1,660,000 troops in Iraq.

Talvez por isso a guerra na Croácia, que apesar de tudo já era subsequente à guerra na Eslovénia não pudesse ter o mesmo impacto que a primeira Guerra do Golfo.
Até pela simples questão da identificação… quem eram estes eslovenos, croatas, sérvios, o que os distinguia, porque razão haveriam de querer retalhar o seu país (conceito estranhissimo para o nosso país com uns 800/900 anos de fronteiras estáveis) e como é que conseguiam ter posições tão extremadas se tinham vivido durante 50 anos numa paz eventualmente aparente.
E quem eram/são os bons? E quem eram/são os maus?
Um país não tem só uma nacionalidade? Não eram eles todos os Eslavos do Sul? Como é que aparecem de repente tantas nacionalidades?

Talvez tenham sido todas estas questões que criaram na minha mente uma ideia mitica sobre essa região. Não é uma vontade de conhecer fisicamente esses países ou de trocar opiniões com os nativos para entender melhor o que lá ocorreu mas mais o de ir construindo um imaginário pessoal a partir de outros relatos… ou então não é nada disso e é simplesmente a beleza e o formato dos livros da Cavalo de Ferro que me levam primeiro com “Marlboro Sarajevo” de Miljenko Jergovic e depois com “O pátio maldito” de Ivo Andric a querer construir esse imaginário.
Não é um imaginário idilico no entanto, não pode ser, num local e num tempo (fins do século xx) onde voltamos a encontrar os tenebrosos campos de concentração e ódio visceral entre seres humanos só pela sua diferença de nacionalidade (mas não eram eles todos os Eslavos do Sul?).
E é isso que podemos ler em Marlboro Sarajevo e imaginar na nossa mente, ou ler e ver em Safe Area Gorazde ou War’s End de Joe Sacco.
E finalmente ficar ainda mais perplexos ao (não) perceber em Macedónia de Harvey Pekar como é que nessa “Former Yugoslav Republic of Macedonia” também não houve um banho de sangue.
A geopolitica não é fácil… e nós normalmente também não ajudamos nada.

por Vitor Silva



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