notas leitura: Confidencial: a Década de Sampaio em Belém

nullSobre o jornalismo actual
pag.32 “A grande vantagem dos fazedores de opinião do nosso quotidiano, e a grande perversidade da crítica que produzem, é que não respondem perante ninguém. Nesse sentido, a crítica é pérfida porque não sofre de qualquer accountability.”
pag.88 “Foram mais as vezes em que a comunicação social preferiu destacar a capacidade de mobilização das candidaturas do que a qualidade das propostas ou de qualquer outro aspecto político relevante”, sobre a postura dos jornalistas na campanhã de Sampaio
pag.141 – ilustrando o caracter por vezes especulativo dos jornalistas “No dia seguinte, alguns jornais aplaudiam o nvo estilo, “estudado ao milimetro e encenado sob a batuta dos maestros do marketing politico”
pag.324 “O tempo de hoje mede-se pelos casos do quotidiano. O fascinio pelas notícias que geram emoção, intriga, desespero são aquelas que merecem a escolha dos editores. A polémica passou a ser critério de noticiabilidade. Muitas vezes, nem são questões essenciais, mas isso há muito deixou de ser o critério relevante.”
pag.327 “Sem jornalistas, a democracia tornava-se vulnerável. Mas se é verdade que a opinião pública depende de um imprensa credível e independente, a prática dos jornalistas pressupõe rigor e isenção. Atributos a que um número crescente destes tem negligenciado. A ‘cacha’ transformou-se num valor-absoluto e no objectivo primeiro do seu trabalho, ignorando mesmo a confirmação da notícia. Consequência, na maior parte das vezes, de uma dinâmica laboral mais preocupada com a lógica de negócio do que com a qualidade do jornalismo praticado.”
pag.343 “A par do que se escreve ou do que se diz, ganhou-se a ideia de que os jornalistas só desempenham bem a sua tarefa se forem agressivos na maneira como questionam os seus interlocutores, como os tratam, como os criticam. Associam a agressividade ao bom desempenho.”

Sobre o entendimento da sua função
pag.353 “Fomos, durante uma década, fontes de muitos jornalistas que nos procuravam para obter informações ou contraditar dados que tinham obtido por outra via. Gerou-se, com muitos deles, uma relação de confiança que nos levava a tomar iniciativa, contactando-os para informá-los de determinados factos que para eles poderiam ter interesse e que nós queriamos ver publicados. Assumimos um papel activo, assumindo-nos como emissores de informação e não como aparelho propagandistico. ”
“É evidente que éramos parte interessada e que isso nos levava a dar uma determinada perspectiva às notícias que divulgávamos ou ao contraditório que fazíamos de algumas situações, valorizando a agenda e destacando o que , do nosso ponto de vista, se apresentava como mais relevante. Mais do que meros dispensadores de informação, também ajudávamos a criar notícias.”
“Um Chefe de Estado também é um criador de circunstâncias. Faz parte da lógica política assumir determinadas causas e dar determinados sinais. A assessoria de imprensa serve exactamente para amplificar e valorizar o conteúdo das mesmas.”

Sobre as fontes
– episódios que correm mal (pag46)
– episódios que correm bem pag308 – respostas preparadas

Sobre a decisão de empossar santana
pag.169 “Foram dias pensador para serem vividos como foram. Só faltou mesmo um PSD menos apático que tivesse resistido a uma transição monárquica dentro do partido”
pag.175 “Infelizmente o PSD não abriu brechas, aclamando mesmo aquela solução, num Conselho Nacional, com uma votação que superou os 90%”
pag.177 “Aquelas audiências mais não foram do que uma tentativa de ganhar tempo, de avaliar até que ponto havia margem para seguir outro rumo, para ver se surgia contestação no interior do PSD à solução proposta e se essa mesma contestação era suficiente para gerar solução diversa.”
pag.236 “Foi a primeira vez – e última – que estive com D. Duarte nesses dez anos, mas nunca mais me esqueci daquela noite. Confesso que a sua figura me causou uma fraca impressão que ainda hoje me acompanha.”

Sobre alguns personagens da política portuguesa
pag. 37 “O problema em Marcelo é precisamente esse: nunca sabemos qual é o lado da fronteira em que se encontra. Para ele, a linha que separa os factos da pura insinuação é demasiado ténue. Quando o ouvimos, é inevitável perguntar ‘Quem pretende atingir?’, ou ‘Quais as verdadeiras intenções que orientam o comentário?´’ De Marcelo nenhuma crítica deve ser assumida por justa, nem nenhum elogio deve ser aceite sem desconfiança”
pag. 160 “Paulo Portas sempre foi eficiente nas palavras e cuidadoso com a aparência. Gosta da imagem que transmite, às vezes um pouco artificial e exagerada. Talvez um pouco narcisista, mas eficaz. Para ele a política também se constrói nas poses ensaiadas e na oportunidade das frases.
pag. 173 sobre um episódio com Mota Amaral e sobre outros personagens políticos. “À minha irritação inicial – que ainda durou um bom par de horas – seguiu-se um realista ‘nada a fazer’ e uma memória bem-humorada de cargas de ombro e alguns empurões que presenciei nas visitas pelo estrangeiro mas, principalmente, no país. Tudo para ficar atrás do Presidente no momento das fotos ou das entrevistas das televisões.”
pag.181 sobre uma reunião com o almirante fuzeta da ponte. “Num dos encontros a que foi chamado ao Palácio, Sampaio colocou-lhe duas ou três questões. Nada de especial, apenas alguns esclarecimentos que o Presidente pretendia obter sobre matéria militar e cuja discussão se fazia por aqueles dias. As respostas saíram imprecisas, inseguras, enfim, demasiado titubeantes para quem chefiava o edificio militar.”

Confidencial: a Década de Sampaio em Belém
João Gabriel
Editor: Prime Books
Número de páginas: 391
ISBN: 989-8028-40-2

por Vitor Silva



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