Comércio Injusto


Século XXI, tecnologia, comunicação instântanea, toda a informação que nós precisamos na ponta do nossos dedos. Mas nem só de informação vive o homem… basta relembrarmos a hierarquia das necessidades de Abraham Maslow para perceber aliás que muitas das nossas preocupações actuais (tenho dinheiro para o carro e a casa, será que consigo sacar aquela série da internet, …) só são possiveis porque necessidades básicas (alimentação, higiene, etc.) são, felizmente, dadas como adquiridas.
Mas na época da Long Tail, do Mundo Plano, o que parece que está a começar a fazer a diferença são as matérias primas base, sejam produtos industriais (petróleo, aço, papel, …), sejam produtos de consumo básico (arroz, trigo, café, …)
Faz sentido trazer à colação as referências de Lester Brown numa conferência do PopTech, e a propósito do seu livro Plan B 2.0, que a China já está a consumir 2x mais trigo e 3x mais Aço que os EUA ou que se a China consumisse proporcioalmente o mesmo papel que os EUA então necessitaria 2x mais papel do que aquele que é actualmente produzido.
E é destas matérias-primas básicas que trata o livro “Comércio Injusto – O Romance Negro das Matérias-Primas” de Jean-Pierre Boris.
Numa visão que não sofre da tradicional necessidade de ser politicamente correcto em relação ao terceiro-mundo (e áfrica em particular) devido ao nosso (francês e português principalmente) passado colonialista, JP Boris relata a evolução dos mercados do cacau, café, algodão, arroz e pimenta sobretudo nos últimos 30/40 anos.
Embora cada um destes mercados tenha as suas ideossincrasias, notamos no entanto um padrão, a passagem de mercados regulados pelo estado, normalmente com elevados graus de corrupção que garantia alguma segurança aos pequenos produtos já que garantia a compra da sua produção, para mercados auto(?) regulados pelas grandes multinacionais que, beneficiam ainda de maiores produções de paises que anteriormente não tinham expressão (ex brasil no algodão, vietname no arroz) e que en pasant, ou como danos colaterais, conseguem a proeza de fazer baixar os preços unitários para valores que, em antigos grandes produtores, ficam abaixo dos seus custos de produção.
Como é que se resolve isso? Não é este o livro para termos essa resposta. Este é um livro de introdução ao problema, contextualização, chamar os bois pelos nomes, falar da corrupção, da pressão dos organismos dominadores como o FMI ou Banco Mundial, da maior diversidade de players (o mundo deixou de ser só eua, europa e japão, agora temos o BRIC brasil, russia, india e china, quem sabe para quando o resto da américa latina e áfrica), das mega-multinacionais, dos mercados de futuros (que transaccionam contratos em quantidades várias vezes superiores à produção real) e, no final, lança mais alguma areia sobre a nossa ideia formada sobre cadeias de comércio justo.

Comércio Injusto
Jean-Pierre Boris
Edições ASA
Colecção: Questões de fundo
Nº págs.: 201
ISBN: 978-972-41-4994-3

por Vitor Silva



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