Vertigem Americana – Bernard-Henri Lévy

Vertigem Americana de Bernard-Henri Lévy parte da ideia de reconstituição da viagem de Tocqueville no século XIX que deu origem ao seu clássico “Da democracia na América” , mas não é importante tê-la presente para encontrar pontos de interesse neste livro.
É um livro sobre a América, melhor sobre os Estados Unidos da América

“a primeira coisa a não esquecer é que a própria identidade do país, o seu alicerce, o seu nome, mais exactamente a sua maneira de não ter nome próprio e ter adoptado um nome que, à partida, não quer dizer nada (Américo Vespucci, o nome de um navegador florentino imortalizado como cartógrafo!) (…) (imagine-se os franceses ou os alemães autobaptizarem-se de “europeus” com a mesma desenvoltura que os colonos da Nova Inglaterra “americanos” ” (pag.297)

Não é sobre a América homgeneizada que conhecemos dos filmes de hollywood, do rock de nova iorque, da disneyworld da florida ou do mcdonalds do fundo da nossa rua.
Fala nos da América que desconhecemos, dá pistas para tentar perceber as idiossincrasias americanas, o que não é o mesmo que dizer que assim as consigamos aceitar ou até perceber

[sobre um soldade em guantanamo] “… um outro sargento, que não se incomoda de confessar que, por vezes, vê-se obrigado a dar uma tareia num detido que lhe cospe em cima ou que emporcalha a sua parede de excrementos, mas exclamando que, em contrapartida, há procedimentos que impedem que manipulem o Livro [o Corão] sem o envolver num pano especialmente previsto para o efeito” (pag.278)

E mostra-me a mim, que não conheço os eua:
– a realidade da liberdade condicional (inexistente) do estado da luisiana “Como se vive numa prisão quando se sabe que, independentemente do que se faça, nunca se sairá de lá senão morto” (pag.189)
– a cidade quase 100% árabe de dearborne, michigan
– a cidade quase 100% idosa de suncity, arizona, “… cuja primeira regra de gestão é só aceitar os casais que provem que têm um capital suficiente para poderem viver até aos cem anos – oficialmente, o objectivo do jogo! – sem risco de cessação de pagamento …” (pag 163)
– desmitifica um pouco a questão dos apoios sociais (não atribuidos pela organização una e abstracta chamada estado social que conhecemos mas pelas organizações profissionais, seguradoras, estados federais e governo do país, “A principal fonte de complexidade, logo, de mal-entendido, a razão profunda e quase filosófica, de uma tal variedade de situações e, para nós Europeus, de uma tal ilegibilidade, tem a ver com a desconfiança que inspira, nos Estados Unidos, a ideia de um Estado que centraliza nas suas mãos todos os instrumentos de redistribuição – tem a ver com esse “individualismo” metódico que Tocqueville mostrou, definitivamente, que entende deixar a cada um, ou às associações escolhidas por cada um, a responsabilidade dos destinos individuais.” (pág.153)
– ridiculariza a museologia geral onde tudo é passivel de ser venerado, olhado com reverência e invocado como misticismo num extremo que leva à criação da museologia futuróloga (pag.66)
– e diz sobre o criacionismo “Admirável esta elevação ao nível de “ciência” do que é precisamente o rosto da superstição e da impostura.” (pág.149)

É ainda o livro de viagens, chicago (pág.60), seattle (pág.103), a chegada à (anti-)cidade de l.a. (pág.119), as cidades fantasmas (pág.157), nova orleães antes (pág.187) e depois de katrina (pág.357) e um retrato da sociologia do país, os mexicanos, indios, judeus, arabes, negros, pobres, cubanos, gays, gordos, politicos … quem são afinal os verdadeiros americanos neste país de emigração

“entre todos estes povos dissemelhantes e que não estão, de facto, dispostos a renunciar a essa dissemelhança, observa-se o mesmo paradoxo de um desejo de americanidade, ou mesmo, como diria Richard Rorty, de um desejo de “fazer alguma coisa” da sua americanidade e do seu país que, longe de lhes parecer incompatível com o exercício da sua “opção étnica”, parece decuplado pelo sentimento de lhe trazer, ao fazê-lo, um património e características que, no fim dos fins, operam a sua grande glória” (pág.299)

Finalmente e talvez a maior surpresa, fala do idealismo que subiu ao poder e governa o país que nos habituamos a ver como mais imoral e pragmático.

[sobre uma convenção repúblicana de nova iorque] “… a única coisa que não podemos, sem má-fé, apoiar é que entre o discurso desta gente e o dos delegados que em Boston, ovacionam Michael Moore ou o senador Ted Kennedy, não haja diferença de conteúdo e de ideologia” (pág.101)

e levanta questões sobre como essa ideologia é aplicada

“Como se pode, como eu, ter passado a vida a deplorar a inacção dos países ricos, a sua pusilanimidade, o seu muniquismo recorrente face a adversários obstinados até à perdição e dispostos a tudo para ter os meios para o conseguir – e como se pode não sentir regozijo quando aparece, finalmente, na maior e mais poderosa democracia do mundo, uma geração de intelectuais que, ao pensar a mesma coisa que eu, se aproxima das alavancas do poder e agem, concretamente …” (pág.236)“Quando se defende uma política por extremo, será necessário defendê-la por todos os extremos? Será preciso, porque estamos de acordo sobre o Iraque, ser forçado a estar de acordo sobre a pena de morte, o criacionismo e, aqui, sobre a ordem moral e as suas práticas pestilentes? Deverei eu, quando janto com alguém, encomendar o menu completo?”

Edição Portuguesa Asa Editores

por Vitor Silva



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