é o ambiente, estúpido

será que é desta que o protocolo de quioto começa a ser implementado?
recorri a um dos meus livrinhos favoritos (um só mundo, peter singer, gradiva) para tentar perceber o que está em jogo. deixo só uma passagem.
“… Lomborg [em The Skeptical Environmentalist] afirma que o Protocolo de Quioto nos conduzirá a uma perda liquida de 150 000 milhões de dólares. Esta estimativa pressupõe a existência de comércio de emissões entre países desenvolvidos, mas não entre todos os países do mundo. Pressupõe igualmente que os países em vias de desenvolvimentos continuarão a não estar abrangidos pelo Protocolo – caso no qual o acordo terá apenas como efeito adiar, uns poucos de anos, as alterações clim?ticas previstas. Mas se os países em vias de desenvolvimento se juntarem aos signatários, tendo visto que os países desenvovidos levam a sério a diminuição das respectvas emisções, e se existir comércio mundial de emissões, os números de Lomgborg passam a demonstrar que o pacto de Quioto trará um benefício líquido de 61 000 milhões de dólares.
Todas estas estimativas pressupõem a solidez dos dados de Lomborg – um pressuposto questionável, pois como poderemos avaliar o preço das mortes, cada vez em maior número, devido a doenças tropicais e a inundações que o aquecimento da Terra provocará?

E quanto deveremos pagar para evitar a extinção de espécies e ecossistemas inteiros? Mesmo que conseguíssemos responder a estas interrogações e concordar com os dados utilizador por Lomborg, precisariamos ainda de reavaliar a sua decisão de descontar todos os custos futuros a uma taxa anual de 5%. Uma taxa de desconto de 5% significa que consideramos que perder 100 dólares hoje equivale a perder 95 dólares daqui a um ano, a perder 90,25 dólares daqui a 2 anos e assim sucessivamente. É óbvio que, assim, perder alguma coisa daqui a, digamos, quarenta anos não terá grande importância e, portanto não fará grande sentido gastar agora muito para nos assegurarmos de que não a perdemos. Para ser preciso, a esta taxa de desconto, para nos certificarmos de que não perdemos 100 dólares daqui a quarenta anos só valeria a pena gastar agora 14,2 dólares. Uma vez que os custos da redução das emissões dos gases de efeito de estufa seriam para breve, ao passo que a maior parte dos custos de nada fazer para os reduzir só adviria daqui a várias décadas, a diferença na avaliação dos custos e benefícios é enorme. Suponhamos que o aquecimento não controlado da Terra levava ao aumento do nível das águas dos mares, inundando terra preciosa daqui a quarenta anos. Com uma taxa de desconto de 5%, só vale a pena gastar 14,2 dólares para evitar uma inundação que destruirá definitivamente terras no valor de 100 dólares. As perdas que ocorrerão daqui a um século ou mais vão perdendo importância por não valerem praticamente nada. Isto não se deve à inflacção – estamos a falar de despesa expressa em dólares já ajustados à inflação. Lomborg justifica a utilização de uma taxa de desconto afirmando que se investirmos agora 14,2 dólares, obteremos um rendimento (completamente seguro) de 5% sobre esse valor e, assim, daqui a quarenta anos ele estará transformado em 100 dólares. Embora a utilização de uma taxa de desconto constitua uma prática económica corrente, a decisão acerca da taxa a usar é muitíssimo especulativa e a aceitação de diferentes taxas de juro, ou mesmo o reconhecimento de incerteza quanto às taxas de juro, têm como resultados rácios muito diferentes entre custos e benefícios. Há tamb?m uma questão ética relacionada com o desconto do futuro. É verdade que os nossos investimentos podem aumentar de valor ao longo do tempo e que nos tornaremos mais ricos, mas o preço que estamos dispostos a pagar para salvar vidas humanas, ou espécies ameaçadas, pode aumentar em igual valor. Estes valores não dizem respeito a bens de consumo, como televisores ou máquinas de lavar loiça, que veêm o seu valor reduzir-se na proporção dos nossos ganhos. Aplicam-se a coisas como a saúde, algo que, quanto mais ricos somos, mais dispostos ficamos a não olhar a custos para preservar. Seria necessária uma justificação ética, e não económica, para descontar o sofrimento e a morte, ou a extinção de espécies, simplesmente porque essas perdas não vão ocorrer em quarenta anos. Não se avançou qualquer justificação desse género.

por Vitor Silva



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